Brasil em 2026 e a nova lógica do mercado: a visão do big law
A partir das visões do Cescon Barrieu, do FAS Advogados em cooperação com o CMS, do Machado Meyer, do Pinheiro Neto, do TozziniFreire, do Trench Rossi Watanabe e do Veirano Advogados, esta reportagem oferece uma leitura conjunta do Brasil que se desenha para 2026. O cenário combina cautela macroeconômica, maior sofisticação empresarial e um mercado jurídico cada vez mais pressionado a operar com precisão estratégica
2 de fevereiro de 2026
Por Heidi Maldonado
O Brasil em 2026 não pode ser compreendido apenas a partir de indicadores macroeconômicos nem do ruído político de curto prazo. A leitura mais reveladora emerge de quem atua diariamente no ponto de interseção entre regulação, investimento e decisões empresariais: os grandes escritórios de advocacia. Esta reportagem reúne a visão de Alexandre Gossn Barreto, sócio-diretor do Cescon Barrieu; Paulo Focaccia, sócio-diretor do FAS Advogados em cooperação com o CMS; Tito Amaral de Andrade, sócio-diretor do Machado Meyer; Fernando Meira, sócio-diretor do Pinheiro Neto; Fernando Serec, sócio-diretor do TozziniFreire; Simone Dias Musa, sócia-diretora da Trench Rossi Watanabe; e Paula Surerus, sócia-diretora do Veirano Advogados. A partir dessas contribuições, propõe uma interpretação integrada do momento atravessado pelo país.
O fio condutor é duplo e profundamente interligado. No plano macroeconômico, as bancas descrevem um Brasil de crescimento moderado, custo de capital elevado e postura prudente dos investidores. No plano microeconômico, traçam o retrato de um tecido empresarial que não paralisa, mas passa a decidir de forma distinta: mais bem informado, mais seletivo e com demanda crescente por previsibilidade, eficiência e controle de riscos.
Quando a macroeconomia não impulsiona: crescer com o freio acionado
Alexandre Gossn Barreto, sócio diretor de Cescon Barrieu
Alexandre Gossn Barreto, sócio-diretor do Cescon Barrieu, estabelece o ponto de partida ao reconhecer que projetar o Brasil “sempre é um desafio”, especialmente em ano eleitoral. Seu enquadramento, contudo, não aponta para um cenário de colapso, mas de estabilidade limitada.
“O Brasil apresenta sinais de estabilidade, mas opera sem um impulso claro. Em um ambiente de juros elevados, o acesso ao crédito torna-se mais restritivo e as decisões de investimento exigem um nível muito maior de prudência”.
Na sua leitura, o país evita a deterioração, mas não consegue acelerar. O cenário de juros altos dificulta o acesso ao crédito, adia investimentos e pressiona contratos e estruturas financeiras. O resultado não é uma economia paralisada, mas um ambiente que obriga empresas a priorizar, renegociar e, em muitos casos, reestruturar.
Paulo Focaccia, sócio diretor de FAS Advogados en cooperación con CMS
Essa cautela estrutural é reforçada pelo FAS Advogados em cooperação com o CMS. Para Paulo Focaccia, sócio-diretor, 2026 será um ano especialmente desafiador pela combinação entre economia, política e aceleração tecnológica. O mercado, segundo ele, reage tanto às condições macroeconômicas quanto à incerteza institucional.
“O cenário econômico e político, somado à aceleração tecnológica, exige decisões mais prudentes. Nesse contexto, as áreas regulatória, contenciosa e tributária tendem a ganhar protagonismo”.
Tito Amaral de Andrade, sócio diretor do Machado Meyer
Tito Amaral de Andrade, sócio-diretor do Machado Meyer, acrescenta uma camada adicional ao diagnóstico. As empresas estão mais atentas ao contexto macroeconômico, regulatório e geopolítico, o que conduz a decisões mais conservadoras e à busca por assessorias orientadas à segurança e à previsibilidade.
“O cliente corporativo está muito mais atento ao contexto macroeconômico, regulatório e geopolítico. Isso se traduz em decisões mais prudentes e na busca por assessorias que ofereçam segurança e previsibilidade em cenários complexos”.
A microeconomia se sofistica: decidir com menor margem de erro
Se a macroeconomia impõe contenção, a microeconomia eleva o grau de sofisticação. A mudança mais visível aparece no perfil do cliente corporativo.
“Hoje, o cliente corporativo é extremamente sofisticado, orientado a custos e a resultados efetivos, e muito mais integrado às decisões de negócio”, afirma Alexandre Gossn Barreto.
Nesse contexto, o departamento jurídico interno deixa de atuar como mero executor e passa a desempenhar um papel estratégico. Isso eleva o nível de exigência imposto aos escritórios, com foco em previsibilidade, eficiência e atendimento próximo, sustentado por conhecimento setorial.
Pelo FAS, Paulo Focaccia reforça que conhecer o cliente deixou de ser um diferencial para se tornar uma condição mínima. Soma-se a isso a crescente valorização da segurança jurídica e institucional, medida pela consistência técnica, pela governança e pela gestão de riscos.
Fernando Meira, sócio diretor do Pinheiro Neto
Fernando Meira, sócio-diretor do Pinheiro Neto, introduz a dimensão econômica dessa mudança. Seus clientes estão focados em valor, previsibilidade e eficiência, o que obriga os escritórios a repensar não apenas a prestação do serviço, mas também os modelos de honorários e a organização interna.
“A pressão por valor e previsibilidade nos exige oferecer agilidade e soluções práticas, com modelos de honorários compatíveis com a complexidade real de cada projeto”.
Reforma tributária e densidade regulatória: quando o marco redefine o investimento
No cenário de 2026, a reforma tributária surge como um fator transversal, que vai além do mero cumprimento técnico.
“A entrada em vigor da reforma tributária não apenas amplia a demanda na área fiscal, como também obriga à revisão de estruturas, investimentos e modelos operacionais”, afirma Paulo Focaccia.
Paula Surerus, sócia diretora da Veirano Advogados
Pelo Veirano Advogados, Paula Surerus, sócia-diretora, também aponta a área tributária como um vetor central de oportunidades, diretamente ligado às mudanças estruturais do sistema tributário brasileiro e ao impacto sobre as decisões empresariais.
“As alterações decorrentes da reforma tributária têm impacto direto na forma como as empresas estruturam suas operações e tomam decisões de investimento. A área tributária torna-se estratégica nesse novo contexto”.
A consequência é imediata. Quando o arcabouço tributário se transforma, as empresas revisam cadeias de valor, estruturas societárias e políticas de preços. A densidade regulatória passa a ser um custo permanente, que recompensa a preparação e penaliza a improvisação.
Tecnologia como filtro competitivo: eficiência com governança
Fernando Serec, sócio diretor do TozziniFreire
Fernando Serec, sócio-diretor do TozziniFreire, destaca que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar infraestrutura.
“A inteligência artificial já faz parte do dia a dia. Ela agilizou processos como a revisão de contratos e a due diligence, permitindo que os advogados se concentrem em atividades de maior valor agregado”.
Pelo Pinheiro Neto, Fernando Meira acrescenta a dimensão organizacional. A IA eleva a produtividade, fortalece as legal operations e impõe a revisão de modelos tradicionais de trabalho e de precificação.
Paula Surerus ressalta o componente de controle e responsabilidade, com soluções baseadas em IA sempre validadas por advogados, em um modelo de apoio à tomada de decisão.
Lido em chave macroeconômica, esse movimento revela um paradoxo. Em um país de crescimento moderado, a tecnologia não funciona como atalho, mas como filtro competitivo.
Setores com tração e zonas de risco: investimento seletivo e reestruturação
As bancas não desenham um mercado homogêneo. Identificam vetores de tração estrutural e, ao mesmo tempo, focos claros de risco.
“Seguimos vendo oportunidades relevantes em infraestrutura, energia, recursos naturais e economia digital, mas os juros elevados tendem a restringir crédito e investimentos, gerando pressão sobre estruturas financeiras”, aponta Alexandre Gossn Barreto.
Segundo ele, esse ambiente alimenta uma demanda contenciosa associada a processos de reestruturação e a situações de estresse financeiro.
Simone Dias Musa, sócia diretora da Trench Rossi Watanabe
Pelo Trench Rossi Watanabe, Simone Dias Musa, sócia-diretora, amplia o mapa e identifica oportunidades tanto na área transacional quanto em reorganizações, comércio internacional, ESG e créditos de carbono.
“O mercado combina operações estratégicas com reorganizações e reestruturações, em um contexto de maior complexidade regulatória e financeira”.
A imagem final é a de um crescimento por ilhas. Há setores que mantêm dinamismo e outros que geram demanda jurídica em razão de pressões estruturais.
A leitura conjunta de Barreto, Focaccia, Amaral de Andrade, Meira, Serec, Dias Musa e Surerus desenha um Brasil em fase de maturação exigente. A macroeconomia limita o impulso. Crescer é possível, mas custa mais e exige execução cuidadosa. A microeconomia, em resposta, se sofistica. O cliente corporativo decide com mais informação, menor tolerância à fricção e maior pressão por previsibilidade e geração de valor.
Nesse cenário, a big law atua como um sensor antecipado do mercado. Não apenas interpreta o direito, mas organiza riscos, transforma incerteza em estruturas e traduz limites macroeconômicos em decisões microeconômicas executáveis. Compreender o Brasil em 2026 passa, também, por entender essa nova lógica: quando o contexto não impulsiona, a competitividade depende da capacidade de operar com precisão.