Em 2026, a grande questão no Brasil já não será se a inteligência artificial deve ou não ser incorporada, mas como integrá-la de forma segura, estratégica e efetivamente geradora de valor. A pressão por eficiência, previsibilidade e maior proximidade com o cliente elevou o nível de exigência do mercado e deslocou o debate da ferramenta em si para aquilo que realmente diferencia os escritórios: pessoas, processos e conhecimento interno.
Esta conversa com Simone Dias Musa, sócia-gerente de Trench Rossi Watanabe, integra o relatório especial “Brasil em 2026 e a nova lógica do mercado: a visão do big law”. Sua análise parte de uma premissa clara: a vantagem competitiva deixou de estar na simples adoção da tecnologia e passou a residir na capacidade de aplicá-la com critério, a partir do próprio acervo de conhecimento do escritório.
Inteligência artificial: do acesso generalizado ao uso inteligente
Uma das prioridades estratégicas da firma para 2026 é aprofundar a integração da inteligência artificial em todas as áreas de atuação. O Trench Rossi Watanabe já utiliza ferramentas como o Copilot em todos os seus grupos de prática e conduz projetos-piloto com soluções mais especializadas, como o Legora. O uso da IA também se estende a áreas administrativas críticas, como finanças, faturamento e cobrança.
O objetivo é ampliar produtividade e qualidade, individual e coletiva, sem comprometer a agilidade ou a excelência na prestação de serviços. Musa, no entanto, faz uma distinção central:
“O diferencial entre os escritórios de advocacia não será a ferramenta de IA que eles contratam, mas o talento das pessoas e a capacidade de aplicar essa tecnologia com qualidade e segurança sobre seus próprios dados”.
A partir dessa constatação, a firma iniciou uma reestruturação profunda de seu sistema de gestão do conhecimento, consciente de que, sem dados bem organizados, a IA perde eficácia e amplia riscos operacionais e reputacionais.
Treinamento obrigatório e revisão do modelo econômico
A integração da IA é tratada também como uma decisão organizacional. Como consequência, o escritório assumiu o compromisso de implementar treinamento obrigatório para todos os advogados, em todas as áreas, por meio de programas de capacitação no Brasil e no exterior, com foco na aplicação prática dessas ferramentas. A implementação ocorrerá de forma gradual a partir de 2026.
Essa transformação impacta diretamente a lógica econômica tradicional do setor.
“Uma maior integração da IA exige a reestruturação dos modelos de precificação e a revisão dos sistemas de remuneração e das métricas de avaliação”.
O ganho de eficiência pressiona o modelo clássico de cobrança por hora e abre espaço para formatos alternativos, mais alinhados ao valor efetivamente entregue ao cliente.
Expansão transacional e proximidade física com o cliente
Outro eixo estratégico para 2026 é a expansão contínua da área transacional, iniciada há mais de uma década. A entrada de novos sócios e a formação de grupos especializados em finanças, mercado de capitais e fusões e aquisições sustentaram um crescimento consistente de dois dígitos.
Esse movimento se reflete também em decisões físicas. A firma ampliará sua presença na Avenida Faria Lima, com a ocupação do edifício Torre Salma, ao mesmo tempo em que moderniza sua sede histórica na Avenida Chucri Zaidan, onde atua há 27 anos.
“Manter os dois espaços integrados nos permite estar mais próximos de clientes estratégicos e responder a uma demanda crescente por presença física no contexto pós-pandemia”.

A aliança com a Baker McKenzie e o valor do alcance global
Em um contexto de crescente volatilidade geopolítica, a aliança de quase 70 anos com a Baker McKenzie ganha relevância estratégica renovada. Segundo Simone Dias Musa, a capilaridade global da firma internacional amplia de forma concreta a capacidade de Trench Rossi Watanabe de assessorar clientes multinacionais em cenários complexos e mutáveis. “Em um ambiente de turbulência geopolítica internacional, o conhecimento acumulado pela Baker McKenzie, aliado à sua presença global, nos permite atender clientes com agilidade e eficiência em temas de comércio exterior, na revisão e proteção de modelos de negócios diante de novos riscos geopolíticos e na adaptação a tendências e reformas tributárias no Brasil e no exterior”.
Nesse contexto, o suporte a operações transfronteiriças cada vez mais sofisticadas permanece como um dos focos centrais da estratégia da firma.
“Nossa capacidade de assessorar transações internacionais complexas é um pilar essencial do nosso posicionamento”.
Um cliente mais informado e orientado ao valor
O perfil do cliente corporativo mudou de forma estrutural. Mais informado, sofisticado e exigente, passou a demandar previsibilidade, eficiência e clareza. Segundo Musa, hoje os clientes:
“Esperam previsibilidade de custos, eficiência operacional, inclusive por meio do uso intensivo de IA, comunicação objetiva e uma compreensão profunda de seus negócios e estratégias”.
O foco deslocou-se definitivamente da entrega formal para o valor percebido: impacto, oportunidade e transparência.
“Gerar valor percebido, no momento certo e com o nível de clareza adequado, tornou-se essencial”.
Essa mudança acelera a transição do modelo tradicional de cobrança por hora para estruturas baseadas em valor. Para sustentar esse movimento, a firma conta com um departamento dedicado de precificação, além de equipes consolidadas em Operações Jurídicas, Gerenciamento de Projetos e Gestão do Conhecimento, que fornecem dados, processos e previsibilidade à tomada de decisão.
Rainmakers: da origem relacional ao impacto sustentável
O papel do rainmaker segue relevante, mas deixou de ser individual e episódico. Na leitura de Simone Dias Musa, o criador de oportunidades de 2026 gera valor sustentável ao traduzir a estratégia do cliente em soluções jurídicas integradas, apoiadas por equipes multidisciplinares.
“Os clientes valorizam cada vez mais relações de confiança e parcerias de longo prazo”.
Além do networking, tornam-se indispensáveis visão estratégica, capacidade de colaboração, empatia e liderança de times diversos — competências que conectam desenvolvimento de negócios à execução consistente.
Áreas de oportunidade em um mercado mais complexo
A firma segue investindo no fortalecimento de suas práticas transacionais, que vêm registrando crescimento relevante e consistente. A expectativa é de aumento em reorganizações societárias e transações estratégicas voltadas à otimização de resultados e à geração de valor.
“Esperamos uma intensificação das reorganizações corporativas, maior atividade em fundos, além de movimentos relevantes nos mercados de dívida e de reestruturação”.
Musa destaca ainda o acompanhamento atento da área de Comércio Internacional, em resposta às mudanças no ambiente global e às discussões tarifárias. Temas como inteligência artificial, propriedade intelectual, proteção de dados e segurança cibernética tendem a ganhar ainda mais relevância, tanto no contencioso quanto em decorrência de mudanças legislativas no Brasil.
Questões trabalhistas também permanecem no radar, assim como setores ligados a energia, infraestrutura, ESG, créditos de carbono e soluções baseadas na natureza. No campo tributário, a agenda será fortemente influenciada pela Reforma Tributária brasileira e pelas regras de preços de transferência.
Talento, liderança e cultura como vantagem competitiva
Para a Trench Rossi Watanabe, o desenvolvimento e a retenção de talentos são vetores estratégicos centrais. A formação de novos líderes passa por programas estruturados, cultura de feedback contínuo e trajetórias de carreira diversas.
Entre as iniciativas, destaca-se o RISE, programa voltado a associados seniores, com foco em competências estratégicas, visão de negócios e gestão, fortalecendo o pipeline de liderança e ampliando a representatividade feminina. Nos níveis mais altos, o LIFT, direcionado a associadas mulheres, acelera o desenvolvimento de talentos de alto potencial para posições de liderança estratégica, reforçando um plano de sucessão sustentável e diverso.
“Acreditamos firmemente que equipes diversas tomam decisões melhores, impulsionam a inovação e refletem melhor a sociedade e nossos clientes”.
Nesse desenho, a liderança tem papel decisivo para equilibrar alto desempenho, inovação e bem-estar. Liderar pelo exemplo, estimular o diálogo e assegurar que o crescimento não ocorra à custa do esgotamento profissional são responsabilidades centrais.
“A cultura não é imposta: ela é construída diariamente, a partir de decisões coerentes”.
Na advocacia de grande porte no Brasil em 2026, a tecnologia será um ponto de partida comum. O diferencial real estará nos escritórios capazes de integrar talento, dados, liderança e cultura em um projeto institucional coerente e de longo prazo.
A leitura de Simone Dias Musa sintetiza essa lógica: não se trata de ter mais tecnologia, mas de saber utilizá-la melhor, sem perder de vista as pessoas que sustentam o projeto.
É nessa combinação de critério, coerência e cultura que se consolida a verdadeira diferenciação do mercado jurídico contemporâneo.