O ano fiscal de 2026 se configura menos como um ponto de ruptura e mais como um teste de resistência para diferentes modelos tributários. Na Europa, a combinação de crescimento moderado, dívida elevada e restrições políticas está reduzindo a margem de manobra. Na América Latina, a tensão se divide entre a estabilidade macroeconômica, a necessidade de atrair investimentos e as pressões estruturais sobre os gastos públicos.
Mais do que grandes reformas, o que define 2026 é a forma como cada jurisdição administra a estabilidade: se a utiliza como alavanca para atrair capital, como no Paraguai; se a transforma em um ônus tributário silencioso, como na Espanha; ou se a coloca em risco devido a desequilíbrios fiscais persistentes, como na Colômbia. Nas palavras de Luis Carísimo, chefe do Departamento Tributário da Altra Legal, “a discussão tributária não gira mais apenas em torno de impostos, mas também em torno de previsibilidade, confiança e qualidade institucional”.
Esse fio condutor comum nos permite ler em paralelo realidades muito diferentes, Espanha, Andorra, Paraguai, Colômbia e Peru, mas ligadas pelo mesmo contexto global: maior escrutínio, administrações fiscais mais ativas e uma crescente demanda por um planejamento sofisticado.
Espanha: receita tributária em alta sem grandes reformas

A Espanha entra em 2026 sem margem política para uma reforma fiscal profunda, mas com crescente pressão tributária oriunda de outras frentes. Com crescimento estimado em 2,9% e dívida pública próxima de 100% do PIB, o debate fiscal vem se deslocando da reforma regulatória para a gestão administrativa.
Paradoxalmente, essa paralisia não impede que a arrecadação tributária continue a crescer. “As alíquotas não estão sendo ajustadas pela inflação, e a Administração Tributária está excepcionalmente motivada; isso explica boa parte do aumento da arrecadação”, observa José María García Guirao, sócio da Devesa. O aumento da arrecadação ocorre sem grandes mudanças legislativas, o que eleva a carga tributária efetiva sem gerar um debate político explícito.
No plano internacional, a política fiscal espanhola é mais influenciada por Bruxelas do que por Madri. “A Espanha reflete em grande parte a política da União Europeia; a guerra comercial de Trump foi mais um fenômeno inicial do que uma tendência sustentada”, observa García Guirao. Os setores mais expostos às tensões comerciais começaram a buscar mercados alternativos, um processo dispendioso no curto prazo, mas administrável no médio prazo.
Do ponto de vista prático, a Devesa estrutura seus serviços de consultoria em torno de avaliações abrangentes. A revisão de estruturas de holdings, a otimização de ativos por meio de SOCIMIs ou SCRs e a realização de análises detalhadas do impacto do IVA em setores com atividades isentas permitem a criação de estruturas capazes de absorver mudanças futuras. Esse cenário é agravado pelo crescente volume de litígios tributários, em um contexto no qual as autoridades fiscais adotam critérios agressivos que nem sempre são confirmados pelos tribunais.
Andorra: tributação competitiva sob maior escrutínio

Andorra representa um modelo único no panorama tributário analisado: menor volume, controles mais rigorosos e um compromisso explícito com a estabilidade de longo prazo. Carlota Pastora, sócia-gerente do escritório de advocacia empresarial Carlota Pastora Business Law Firm, identifica 2026 como um ponto de virada após a aprovação da segunda Lei Omnibus, que endurece substancialmente o regime de residência passiva e redefine o perfil do residente internacional.
“Não basta mais apenas mudar de residência. A mudança exige planejamento tributário real, análise do país de origem e conformidade absoluta.”
A exigência de um investimento mínimo elevado, somada a taxas de entrada não reembolsáveis e à ampliação da troca automática de informações fiscais com a União Europeia, que, a partir de 2026, passa a incluir criptoativos, dinheiro eletrônico e moedas digitais, elevou significativamente o nível de escrutínio e pôs fim a qualquer abordagem padronizada.
Longe de encarar esse aperto como um obstáculo, a empresa o interpreta como uma oportunidade estratégica. “Os novos requisitos são muito seletivos: haverá menos volume, mas eles atraem pessoas com patrimônio substancial que buscam compromisso de longo prazo, qualidade de vida excepcional e planejamento sucessório sólido. Isso é positivo para nós, porque são clientes com maior comprometimento e fidelidade”, explica Pastora.
Na área de residências passivas, ela destaca que o perfil histórico dos clientes já era de longo prazo e que as mudanças regulatórias “reforçam ainda mais essa tendência”.
Em relação às projeções de crescimento, a empresa evita interpretações triunfalistas. “Com mudanças legislativas tão recentes, é muito cedo para fornecer uma previsão numérica exata. Primeiro, veremos como tudo evolui nos próximos seis meses, porque o perfil do cliente certamente mudará”, avalia. O foco não está no volume de casos, mas na qualidade e na profundidade da assessoria.
Esse mesmo princípio se aplica ao setor imobiliário. Após vários anos de alta nos preços devido à escassez de terrenos, a recente Lei Omnibus deve, na avaliação de Pastora, ajudar a estabilizar o mercado e beneficiar os moradores locais. “Nosso crescimento não vem de grandes transações imobiliárias. Quando atuamos com imóveis, oferecemos suporte completo, desde a due diligence até o planejamento patrimonial integral”, explica.
O compromisso estratégico da empresa para 2026 também envolve a integração efetiva da inteligência artificial na consultoria tributária internacional e no planejamento patrimonial.
“A IA está se tornando uma parceira silenciosa que elimina tarefas repetitivas e libera tempo para o que é essencial: entender o cliente, negociar com agências governamentais e projetar soluções exclusivas.”
Na visão de Pastora, a utilização dessas ferramentas permite a simulação de cenários sucessórios, a modelagem dos impactos tributários transfronteiriços e a antecipação de riscos, sempre com total supervisão humana.
A liderança de Carlota Pastora e seus mais de 15 anos de experiência em tributação internacional foram fundamentais para consolidar a posição da firma no mercado ibérico. “Com tenacidade e paixão. Não somos apenas mais um escritório de advocacia; somos o parceiro ideal para o mercado ibérico”, resume. Essa estratégia resultou em uma forte conexão entre Andorra, Espanha e Portugal, sustentada por alianças sólidas com escritórios nos três países.
“Minha abordagem sempre foi estar um passo à frente: antecipando mudanças regulatórias, treinando a equipe em medidas preventivas e construindo relações duradouras de confiança. O resultado são clientes que não vêm pelo preço, mas pela tranquilidade e por resultados reais”, acrescenta.
O crescimento da empresa se apoia em dois pilares que Pastora considera essenciais: personalização absoluta e uma rede internacional de confiança. “Cada cliente de elevado patrimônio líquido é um caso único; não existe uma abordagem padronizada”, afirma. A atuação da firma é predominantemente transfronteiriça e se baseia em colaborações com escritórios na Espanha, França, Portugal, Luxemburgo, Países Baixos, Alemanha, Suíça e Reino Unido, o que permite uma gestão integrada de questões fiscais, sucessórias e contratuais internacionais.
Essa abordagem se traduz em uma resposta abrangente às necessidades dos clientes, tanto em tributação direta e indireta quanto em operações comerciais. “Trabalhamos com uma abordagem holística e preventiva. Os clientes não querem surpresas; querem dormir tranquilos sabendo que seus negócios e ativos estão protegidos e em crescimento”, afirma.
Para 2026, Pastora identifica com clareza a área de maior crescimento. “Sem dúvida, o planejamento sucessório transfronteiriço continuará sendo o segmento de expansão mais acelerada. As famílias escolhem Andorra para organizar adequadamente sua sucessão, minimizar a carga tributária e aproveitar benefícios estruturais, como a ausência de impostos sobre patrimônio e herança.”
Crescimento e disciplina: o caso paraguaio

O Paraguai inicia 2026 como um dos poucos casos da região em que a estabilidade fiscal não é apenas retórica, mas uma realidade comprovada. Com projeção de crescimento de 4,2%, o país consolidou um histórico de disciplina macroeconômica que culminou, em dezembro passado, na atribuição do grau de investimento (BBB-) pela Standard & Poor’s, após a classificação Baa3, com perspectiva estável, concedida pela Moody’s em 2024.
Para Luis Carísimo, chefe do Departamento Tributário da Altra Legal Paraguai, o impacto dessas classificações vai muito além da reputação. “O grau de investimento é um sinal concreto para os investidores: reduz o custo de capital, permite o planejamento de longo prazo e fortalece a credibilidade do sistema tributário”, explica. Ao contrário de outras economias da região, o Paraguai não enfrenta, em 2026, a necessidade de ajustes fiscais abruptos ou reformas tributárias emergenciais.
Esse posicionamento é sustentado por um processo de modernização regulatória voltado ao investimento produtivo. A atualização abrangente do regime de Maquila, a reforma do regime de incentivos ao investimento produtivo, a antiga Lei 60/90, e a promulgação de uma lei específica para a produção e montagem de bens elétricos, eletrônicos, eletromecânicos e digitais constituem um pacote regulatório coerente.
“Não se trata apenas de atrair capital, mas de fazê-lo de acordo com padrões internacionais, com geração de empregos e transferência de tecnologia”, destaca Carísimo.
Do ponto de vista fiscal, a lógica é clara: ampliar a base econômica em vez de aumentar a carga tributária. “A combinação de estabilidade tributária, regras claras e uma melhor classificação de risco-país permite elevar a arrecadação sem aumentar impostos”, resume. Essa abordagem é especialmente relevante em um contexto regional no qual muitos países enfrentam déficits persistentes e pressão para elevar a carga tributária.
No plano externo, o Paraguai mantém uma exposição relativamente limitada à volatilidade financeira e aos choques do comércio global. Seu perfil de exportação, concentrado em commodities e alimentos, aliado à ausência de políticas de retaliação comercial, confere ao país maior margem de manobra. “Não prevemos uma reação fiscal emocional diante de potenciais tarifas ou tensões internacionais; a estratégia continua sendo preservar a confiança e a previsibilidade”, enfatiza Carísimo.
Do ponto de vista institucional, a Altra Legal alinhou sua estratégia a esse período de estabilidade. O escritório participa ativamente da estruturação e execução de projetos à luz das novas regulamentações, oferece treinamento técnico a investidores e stakeholders institucionais e apoia seus clientes no diálogo com as autoridades. Segundo Carísimo, o foco é “combinar segurança jurídica, eficiência tributária e sustentabilidade de longo prazo” em um ambiente no qual o Paraguai busca consolidar sua posição como plataforma regional de investimentos.
Colômbia: incerteza fiscal e pressão estrutural

A Colômbia inicia 2026 enfrentando uma combinação particularmente delicada de circunstâncias: incerteza política, deterioração fiscal acumulada e um ambiente regulatório cada vez mais exigente. Ao contrário do Paraguai, onde a estabilidade fiscal é um trunfo, na Colômbia ela está em debate. O calendário eleitoral, com eleições legislativas em março e presidenciais em maio, influencia diretamente a agenda tributária.
Javier Blel, sócio da área de Controvérsias Tributárias da Deloitte Colômbia, é enfático: “Ignorar a necessidade de uma reforma tributária teria efeitos imediatos. Sem medidas de ajuste, o déficit fiscal poderia ultrapassar 8% do PIB, excedendo os limites da regra fiscal.” Esse cenário não apenas pressionaria as finanças públicas, como também enviaria um sinal negativo aos investidores e às agências de classificação de risco.
O problema, contudo, vai além de uma única reforma. “A Colômbia precisa discutir não apenas quanto arrecadar, mas como e em que gastar. O tamanho do Estado, a eficiência dos gastos e as prioridades de investimento não podem mais ser adiados”, acrescenta Blel. Mesmo com a aprovação de uma reforma no segundo semestre de 2026, a sustentabilidade fiscal continuará dependendo de decisões estruturais relacionadas aos gastos públicos.
Nesse contexto, a pressão sobre os contribuintes vem se intensificando. As autoridades fiscais ampliaram o volume de auditorias, as verificações cruzadas de dados em larga escala e os procedimentos sancionatórios. “Estamos observando fiscalizações mais detalhadas, critérios técnicos mais rigorosos e cobranças coercitivas com prazos cada vez mais curtos”, explica Blel. A consequência é um aumento significativo dos litígios tributários, especialmente em temas como preços de transferência, auditorias aduaneiras e autos de infração.

A dimensão comercial adiciona outra camada de risco. Claudia Garzón, sócia da área de Impostos Indiretos e Comércio Exterior da Deloitte Colômbia, alerta que “a Colômbia parte de uma posição mais vulnerável em relação aos Estados Unidos em razão de seu déficit comercial. Qualquer desaceleração nas exportações é sentida mais rapidamente”. Esse cenário é agravado por tensões regionais, como as tarifas recíprocas entre Colômbia e Equador, que podem afetar de forma imediata os fluxos comerciais bilaterais.

Do ponto de vista regulatório, o ambiente de conformidade também está se tornando mais rigoroso. Esteban Jiménez, sócio da Deloitte Legal, prevê uma transformação significativa:
“O regulador está caminhando para um modelo integrado de gestão de riscos. As empresas precisarão reformular seus sistemas de conformidade para evitar ficar para trás em um ambiente de maior escrutínio.”
A integração dos riscos de lavagem de dinheiro, corrupção, financiamento do terrorismo e fatores ambientais e sociais aponta para um modelo de supervisão mais transversal, alinhado às normas internacionais.
Diante desse cenário, a Deloitte reforçou uma abordagem abrangente que combina estratégia tributária, gestão de riscos, conformidade regulatória e assessoria jurídica. Segundo Blel, a prioridade é clara:
“Ajudar as empresas a antecipar cenários, e não apenas reagir, em um ambiente tributário cada vez mais complexo e exigente.”
Peru: estabilidade regulatória, aumento de litígios

O Peru encara 2026 em uma posição formalmente estável, mas com pressão tributária que se manifesta de forma administrativa. Não se esperam reformas tributárias significativas no curto prazo, em grande parte em razão da conjuntura política e das próximas eleições presidenciais.
Arturo Tuesta, sócio da área tributária da Deloitte Peru, resume o cenário da seguinte forma:
“Não antecipamos mudanças relevantes na legislação tributária para 2026. Caso ocorram, serão promovidas pelo próximo governo e produzirão efeitos principalmente a partir de 2027.”
Essa estabilidade regulatória, no entanto, não se traduz em menor nível de conflito.
Pelo contrário, a Superintendência Nacional de Alfândega e Administração Tributária (SUNAT) intensificou sua atividade fiscalizatória.
“As autoridades fiscais estão cada vez mais priorizando os aspectos formais em detrimento da essência econômica das transações, o que vem ampliando as disputas tributárias”, destaca Tuesta. As principais áreas de foco incluem preços de transferência, veracidade das transações, aplicação da regra geral antielisão e o uso intensivo de informações provenientes de mecanismos internacionais de troca de dados.
Esse aumento da fiscalização vem forçando as empresas a fortalecer seus processos internos e sua capacidade de resposta às exigências regulatórias. Na Deloitte, a estratégia envolve antecipar riscos e utilizar ferramentas tecnológicas. “Novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, desempenharão um papel fundamental na gestão de informações fiscais, no atendimento a solicitações das autoridades e na avaliação mais precisa de contingências”, explica Tuesta.
O resultado é um cenário em que o Peru combina previsibilidade regulatória com um claro aumento dos custos de litígio e de conformidade. Trata-se de um ambiente menos turbulento do que o da Colômbia, mas não isento de riscos para empresas e investidores.
Uma leitura transversal
Mais de um ano após as reformas, 2026 será um ano de teste para os modelos tributários existentes. A análise dessas jurisdições revela um padrão comum: menos espaço para reformas improvisadas e maior pressão para gerir o que já foi construído.
A Espanha enfrenta o ano com receitas tributárias em alta, mas sem capacidade política para grandes reformas, dependendo da administração tributária como principal alavanca. Andorra, no extremo oposto, restringe o acesso à sua tributação para preservar um modelo competitivo baseado em seletividade, planejamento e visão de longo prazo.
O Paraguai se destaca como uma exceção regional, capitalizando a estabilidade macroeconômica, o grau de investimento e regras claras para atrair investimentos produtivos sem elevar a carga tributária. A Colômbia, por sua vez, chega a 2026 com espaço fiscal extremamente limitado e a necessidade inevitável de redefinir o equilíbrio entre arrecadação, gastos e sustentabilidade do Estado. O Peru mantém um marco regulatório estável, mas desloca a pressão para a esfera administrativa, com maior fiscalização e aumento de litígios.
Para além das diferenças, o fio condutor é claro: 2026 não será um ano de grandes revoluções fiscais, mas de ajustes, conformidade e estratégia. Para empresas e investidores, a chave já não está apenas em onde pagar menos impostos, mas em identificar jurisdições que ofereçam regras previsíveis, consistentes e sustentáveis.