Esta entrevista surge a partir do relatório “Qual modelo de escritório de advocacia prevalecerá em Portugal: as apostas dos sócios-gerentes em 2026”, uma análise que reúne a visão de vários líderes do setor sobre as transformações que estão a marcar a evolução do mercado jurídico português.
Nesse contexto, Mafalda Barreto, managing partner do escritório Gómez-Acebo & Pombo em Lisboa e sócia coordenadora das áreas de direito comercial, societário e fusões e aquisições, direito bancário e financeiro, oferece uma análise clara de como a relação entre escritórios de advocacia e empresas está a mudar.
O cliente corporativo evoluiu: é hoje mais sofisticado e tem expectativas diferentes em relação à assessoria jurídica. Segundo Barreto, essa mudança obriga os escritórios de advocacia a repensar a sua proposta de valor.
“Os clientes já não procuram apenas um prestador de serviços jurídicos, mas sim um parceiro estratégico que compreenda profundamente o seu negócio e os seus desafios.”
Para responder a essa expectativa, é necessário combinar especialização jurídica, conhecimento do setor e um firme compromisso com a inovação tecnológica — três elementos que, em sua opinião, definirão a competitividade dos escritórios de advocacia nos próximos anos.

Especialização jurídica e conhecimento setorial como base do modelo da firma
Num mercado jurídico cada vez mais competitivo, os escritórios de advocacia buscam diferenciar-se por meio da construção de propostas de valor claras e sustentáveis.
No caso do Gómez-Acebo & Pombo, a estratégia centra-se na consolidação de um modelo sofisticado de especialização jurídica, reforçado pela inovação tecnológica e por um profundo conhecimento dos setores em que seus clientes atuam.
“O principal objetivo estratégico da Gómez-Acebo & Pombo para 2026 é consolidar um modelo sofisticado de especialização jurídica, reforçado pela inovação tecnológica e por um profundo conhecimento setorial.”
Esse foco estratégico também se reflete no investimento em talentos altamente especializados. A recente contratação de profissionais com experiência em áreas-chave responde à necessidade de antecipar as transformações que estão a remodelar o mercado.
“O recente investimento em equipes altamente qualificadas — incluindo a contratação de Daniel Reis para liderar a área de propriedade intelectual, industrial e tecnológica em Lisboa — reflete claramente essa ambição.”
Para Barreto, o objetivo final é construir um tipo diferente de relacionamento com o cliente, baseado em uma compreensão profunda de seu negócio e de seu contexto.
“Acreditamos que a verdadeira diferenciação surge da combinação de excelência técnica, pensamento estratégico e capacidade de gerar valor tangível, atuando como verdadeiros parceiros de negócios de nossos clientes”, afirmou.
Tecnologia e inteligência artificial: eficiência operacional e aconselhamento estratégico
A transformação tecnológica é um dos fatores que mais impactam a prática jurídica atualmente.
Segundo Barreto, a inteligência artificial e as novas ferramentas digitais estão a transformar tanto a forma como os escritórios de advocacia se organizam quanto a maneira como a assessoria jurídica é prestada.
“A inteligência artificial e outras tecnologias estão transformando profundamente o setor jurídico, especialmente nos escritórios de maior dimensão.”
Essas ferramentas aumentam a eficiência na gestão de processos, otimizam recursos e permitem analisar grandes volumes de informação jurídica.
“A automação de documentos, a pesquisa jurídica e as ferramentas de análise liberam os advogados de tarefas repetitivas, permitindo que se concentrem em questões estratégicas e de maior valor acrescentado.”
Para os clientes, essa evolução traduz-se em uma experiência mais ágil e em soluções jurídicas cada vez mais adaptadas às suas necessidades.
“Para os clientes, a tecnologia se traduz em uma experiência mais ágil, personalizada e orientada por dados.”
Na Gómez-Acebo & Pombo, essa transformação foi acelerada pela integração de tecnologias avançadas tanto nos processos internos quanto na prestação de serviços jurídicos.
Um cliente corporativo mais sofisticado e orientado para o valor
A mudança no perfil do cliente corporativo é outro fator que está a redefinir o mercado jurídico. Hoje, as empresas possuem maior capacidade analítica, mais informação e expectativas mais elevadas em relação ao valor que os escritórios de advocacia devem agregar.
“O cliente corporativo de hoje é mais exigente e bem informado, e exige previsibilidade, eficiência e aconselhamento altamente especializado por setor.”
Nesse contexto, as empresas já não procuram apenas um consultor jurídico capaz de responder a questões técnicas, mas sim um parceiro que compreenda o seu negócio e seja capaz de antecipar riscos.
“Há uma procura crescente por previsibilidade de custos, transparência, eficiência e, sobretudo, soluções práticas e inovadoras”, explica Barreto.
Para responder a essas expectativas, o escritório aumentou os investimentos em talentos e reforçou a eficiência operacional por meio do uso de tecnologia e da otimização de processos.
“Isso é complementado por uma assessoria proativa e personalizada, focada em antecipar problemas e identificar oportunidades para os clientes.”
Criadores de oportunidades e liderança em um mercado cada vez mais competitivo
Nesse contexto de crescente sofisticação do mercado jurídico, os sócios com forte capacidade de desenvolvimento de negócios continuam a desempenhar um papel fundamental nos grandes escritórios de advocacia.
“O mercado jurídico está se tornando cada vez mais sofisticado e competitivo. Nesse contexto, os chamados ‘criadores de oportunidades’ continuam sendo fundamentais para o crescimento e a sustentabilidade dos grandes escritórios de advocacia.”
No entanto, seu papel vai muito além da simples captação de clientes.
“Seu papel vai muito além da simples captação de clientes: atuam como embaixadores da firma, construtores de relacionamentos de longo prazo e identificadores de novas oportunidades de negócios.”
Segundo Barreto, os futuros líderes precisarão combinar diversas competências essenciais, que vão desde a excelência técnica até um profundo conhecimento dos setores econômicos.
“Para formar os líderes de sucesso do futuro, é essencial cultivar qualidades como inteligência emocional, uma visão de negócios sólida, capacidade de comunicação persuasiva, adaptabilidade a novos ambientes tecnológicos e regulatórios e um profundo conhecimento dos setores de atividade dos clientes.”
Energia, tecnologia e ESG impulsionarão novas oportunidades
Do ponto de vista setorial, Barreto identifica diversas áreas que deverão concentrar oportunidades relevantes para o mercado jurídico nos próximos anos.
“Em 2026, as maiores oportunidades de crescimento estarão concentradas em áreas como ESG, direito digital e tecnologia — com foco especial em cibersegurança, proteção de dados e inovação disruptiva —, fusões e aquisições (especialmente em infraestrutura e tecnologia), financiamento de projetos em energias renováveis e infraestrutura, bem como em setores regulados, incluindo o da defesa.”
A transição energética, a digitalização da economia e o desenvolvimento de infraestruturas estratégicas estão a gerar uma procura crescente por assessoria jurídica especializada.
No entanto, também existem riscos que podem afetar o mercado.
“Os principais riscos estão associados ao atual contexto de instabilidade geopolítica, a possíveis mudanças regulatórias inesperadas, à volatilidade económica e à crescente escassez de talentos especializados.”
Talento, diversidade e desenvolvimento de novas lideranças
No setor jurídico, o talento continua a ser o ativo mais valioso dos escritórios de advocacia.
Para desenvolver e reter talentos, a Gómez-Acebo & Pombo lançou programas de mentoria, formação contínua e participação em projetos internacionais, juntamente com planos de carreira transparentes e meritocráticos.
“A formação de novos líderes é um pilar estratégico, com programas específicos concebidos para desenvolver tanto competências técnicas quanto capacidades de gestão.”
Em paralelo, a firma reforçou suas políticas de igualdade e diversidade.
“Para reforçar a presença de mulheres em cargos de decisão, implementamos políticas de equidade e inclusão, programas de liderança feminina e redes internas de apoio.”
O objetivo é construir um ambiente profissional em que a diversidade seja um verdadeiro trunfo para a organização.
Liderança e cultura organizacional nos escritórios do futuro
Mafalda Barreto enfatiza a importância da liderança na construção de culturas organizacionais capazes de combinar alto desempenho com bem-estar profissional.
“A liderança desempenha um papel fundamental na construção de uma cultura organizacional capaz de conciliar alto desempenho, inovação e bem-estar.”
Para alcançar esse objetivo, os líderes precisam ser capazes de comunicar uma visão clara, construir confiança e promover ambientes onde os profissionais possam prosperar.
“Isso significa adotar modelos de liderança baseados na escuta ativa, no equilíbrio entre vida pessoal e profissional e no reconhecimento da importância da saúde mental.”
Na Gómez-Acebo & Pombo, essa visão se traduz em uma cultura organizacional que busca combinar desempenho profissional com sustentabilidade humana e organizacional.
Em um mercado jurídico cada vez mais complexo e competitivo, Mafalda Barreto acredita que o futuro dos escritórios de advocacia dependerá da capacidade de evoluírem juntamente com os seus clientes. A especialização jurídica, a inovação tecnológica e o conhecimento específico dos setores de atividade continuarão a ser elementos fundamentais para construir essa competitividade.
Mas o verdadeiro diferencial, conclui ela, estará na capacidade dos advogados de compreender o negócio do cliente e apoiá-lo estrategicamente na tomada de decisões.
Porque, como a própria Barreto resume: “Os clientes já não procuram apenas um prestador de serviços jurídicos, mas um parceiro estratégico que compreenda profundamente o seu negócio e os seus desafios.”