No coração da indústria química, onde cada decisão impacta as cadeias globais de suprimentos, a propriedade intelectual e a sustentabilidade, o papel do departamento jurídico não se limita à interpretação de regulamentações. Rodrigo Flores, em entrevista ao Voices of Law: Dialogue with Partners and General Counsel for Latin America, desenvolveu sua expertise profissional a partir da compreensão da planta industrial, do ciclo de vida do produto e do impacto financeiro de cada norma. Na Covestro México, ele lidera uma equipe multifuncional que integra as áreas jurídica, de propriedade intelectual e de compliance sob uma lógica incomum no ambiente corporativo: pensar como empresário e operar como engenheiro de processos.

Da mesa de trabalho ao chão de fábrica: expandindo o círculo de competências
Ao analisar sua carreira em perspectiva, Rodrigo Flores não a define pelos cargos que ocupou, mas por uma decisão estrutural: abandonar a interpretação isolada da norma para compreender o modelo operacional como um todo.
“Em uma indústria técnica, o julgamento profissional não é construído à mesa, mas pela compreensão da fábrica, da cadeia de suprimentos e do ciclo de vida do produto.”
Essa transição permitiu que ele expandisse seu “círculo de competência” para a gestão de riscos sistêmicos. Não se trata apenas de conhecer a lei, mas de entender como ela interage com as operações industriais, a inovação tecnológica e o fluxo financeiro. Essa visão explica por que hoje ele lidera, no México, de forma integrada, as funções jurídica, de propriedade intelectual e de compliance.
Quando a questão deixou de ser apenas jurídica
Há um momento que marca a evolução de qualquer advogado interno. No caso dele, isso ocorreu quando deixou de responder apenas “o que diz a lei?” e passou a formular uma resposta diferente.
“O papel deixa de ser jurídico quando a prioridade passa a ser o custo de oportunidade.”
A partir desse momento, sua função mudou de natureza. Ele deixou de ser apenas um revisor de contratos e passou a avaliar riscos que impactam diretamente o resultado financeiro e a viabilidade do modelo de negócios no horizonte estratégico de cinco anos. O papel estratégico, explica, surge quando a análise jurídica é traduzida em cenários financeiros e em decisões de investimento.
Nesse ponto, o advogado deixa de ser uma área de apoio e passa a atuar como arquiteto de decisões.
Inovar em conformidade para ganhar participação de mercado
A Covestro atua no centro da inovação química e de materiais — um setor em que regulamentação e tecnologia avançam em paralelo. Longe de enxergar as normas como obstáculo, Flores as interpreta como potencial vantagem competitiva.
“A regulamentação não deve ser um obstáculo, mas uma vantagem competitiva. Se você inovar mais rapidamente em seus processos de conformidade do que seus concorrentes, ganha participação de mercado.”
O princípio é claro: conceber processos internos que superem o padrão legal antes que ele se torne obrigatório. Em outras palavras, antecipar-se ao regulador — não por excesso de cautela, mas como movimento estratégico.
Incerteza institucional e cultura operacional
No México, o ambiente regulatório pode apresentar instabilidades. Para uma empresa do setor químico, essa incerteza institucional exige capacidade de adaptação imediata.
Na propriedade intelectual, o desafio está em executar com eficiência em um ecossistema no qual os prazos processuais nem sempre acompanham o ritmo da inovação. Em compliance, o desafio é ainda mais profundo: construir uma cultura capaz de resistir ao atrito gerado por um ambiente regulatório volátil.
“Hoje, compliance não é um código de conduta. É uma cultura operacional.” Essa cultura precisa ser preservada mesmo quando as regras mudam ou a pressão externa se intensifica.

Os freios do carro de corrida
Como equilibrar a proteção da inovação e a agilidade de execução em um ambiente altamente regulamentado?
Flores recorre a uma metáfora industrial: “É o princípio por trás dos freios em um carro de corrida: eles existem para que você possa ir mais rápido com segurança, não para pará-lo.”
Uma proteção robusta viabiliza uma execução mais ousada. O equilíbrio não decorre do excesso de cautela, mas da engenharia de processos jurídicos e da automação de rotinas transacionais. Ao eliminar gargalos, a equipe passa a concentrar esforços onde o valor efetivamente é gerado.
Em suas operações diárias, a empresa aplica o princípio de Pareto: 20% dos temas concentram 80% do valor ou do risco sistêmico. É nesse ponto que direciona sua atenção. A sustentabilidade, por exemplo, deixou de ser mera retórica reputacional para se tornar pré-requisito de acesso a capital e a mercados. Propriedade intelectual e gestão contratual passam a ser tratadas como ativos estratégicos alinhados aos objetivos financeiros.
Certeza, não lições jurídicas
O que a empresa espera de um diretor jurídico, de propriedade intelectual e de compliance?
“As empresas esperam soluções e certeza, não sermões jurídicos.”
A confiança em equipes técnicas é construída ao se falar a linguagem delas: métricas, prazos e resultados. Em organizações de base técnica, opiniões dissociadas de dados têm pouco peso. Por isso, sua liderança se apoia no rigor analítico e no raciocínio a partir de princípios fundamentais — questionando as premissas originais antes de chegar a conclusões.
A credibilidade é consolidada quando o departamento jurídico viabiliza o fechamento de negócios complexos ao estruturar soluções jurídicas inovadoras que outros não identificam. Quando deixa de ser percebido como centro de custos e passa a ser reconhecido como motor de crescimento.
O advogado do futuro: engenheiro de processos
Flores é direto ao descrever o perfil profissional que o setor exigirá nos próximos anos.
“Precisamos de advogados que pensem como engenheiros de processos e executem como estrategistas de negócios.”
Ele valoriza a capacidade de síntese, a mentalidade orientada à resolução de problemas e a agilidade cognitiva. O advogado exclusivamente acadêmico, alerta, perde relevância se não dominar ferramentas tecnológicas nem compreender arquiteturas de dados. Automação e redesenho de processos deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos para a manutenção da competitividade.
Na mesma linha, ele distingue escritórios externos reativos de parceiros estratégicos. Estes alinham incentivos, atuam como extensão da equipe interna e antecipam riscos antes que se concretizem. Não acumulam horas faturáveis; compartilham a responsabilidade pelos resultados.
Sustentabilidade e risco reputacional
Em um ambiente industrial no qual economia circular e sustentabilidade orientam decisões estratégicas, o papel do Direito assume dimensão adicional.
“O papel jurídico deve assegurar que a narrativa da sustentabilidade esteja respaldada por uma estrutura contratual sólida e por certificações adequadas.”
A transição para modelos circulares precisa ser juridicamente consistente e comercialmente viável. Do contrário, o risco de greenwashing pode converter-se em ameaça sistêmica, com impactos regulatórios, reputacionais e financeiros.
Para provocar a evolução do papel interno
Sua participação no Fórum Jurídico de Monterrey 2026, organizado pela Gericó Associates, responde a uma preocupação estrutural: a eficiência dos departamentos jurídicos.
“Não podemos continuar a operar sob modelos tradicionais em um ambiente de hiper-regulação e orçamentos estagnados.”
Ele pretende provocar um debate desconfortável, porém necessário: abandonar tarefas administrativas de baixo valor agregado e recuperar o papel de consultor estratégico por meio da tecnologia e do pensamento crítico.
Rodrigo Flores não concebe a liderança como uma posição hierárquica, mas como uma função técnica e estratégica. Se tivesse de condensá-la em uma única ideia, formulá-la-ia com precisão quase industrial:
“A liderança jurídica é a engenharia da certeza em ambientes altamente incertos.”
Em um contexto no qual se cruzam volatilidade regulatória, pressão reputacional e inovação tecnológica, sua visão oferece uma definição exigente do advogado contemporâneo: menos intérprete de normas e mais arquiteto de vantagens competitivas.