Em uma rede de televisão, muitas decisões são tomadas em uma corrida contra o tempo, e um único erro pode comprometer a credibilidade do veículo. Vanessa Huertas, diretora jurídica de Grupo ATV, um dos principais grupos de televisão do Peru, responde a essa pressão com um estilo de liderança baseado na definição de prioridades claras e no empoderamento da equipe para identificar riscos. Ela trabalha diariamente com as equipes de jornalismo para equilibrar o direito do público à informação com os direitos das pessoas sobre as quais as reportagens são feitas. Esse princípio também norteia sua abordagem em relação ao conteúdo que circula na televisão, nas plataformas de streaming e nas redes sociais, bem como à inteligência artificial generativa, que exige a revisão das autorizações dos talentos e a verificação rigorosa das notícias. Com vistas ao Foro Gerencias Legales Lima 2026, ela acrescenta uma meta pessoal: fazer com que sua voz seja ouvida e abrir caminho para mais mulheres em cargos de liderança. Sobre sua equipe, ela explica: “Quero que cada membro se sinta confiante para dizer: ‘Vejo um risco aqui’, mesmo quando todos estão sob pressão”.
Em que fase da sua carreira você se preparou para liderar o departamento jurídico de um grupo de mídia?
A etapa que mais me preparou foi quando comecei a participar diretamente das decisões de negócios e a ver como nossas recomendações funcionavam na prática. Foi aí que entendi que o que propomos na área jurídica tem consequências para as pessoas, as equipes e os projetos.
Aprendi a ouvir diferentes departamentos, a negociar e a defender minhas convicções quando o risco assim o exigia. Também aprendi a buscar alternativas: quando uma proposta não era viável, eu tinha que ajudar a encontrar uma solução que nos permitisse seguir em frente.
Esse aprendizado tem sido fundamental para gerenciar o departamento jurídico de um grupo de mídia, onde muitas decisões são tomadas contra o relógio. É preciso ter bom senso, explicar as coisas com clareza e assumir a responsabilidade por suas recomendações.
Pessoalmente, também aprendi a confiar na minha experiência e a fazer com que a minha voz fosse ouvida. Como mulher, assumir uma posição de liderança significou reconhecer que eu estava preparada para ocupar esse cargo e que tinha algo valioso a contribuir.
O que você aprendeu sobre liderança ao comandar uma equipe jurídica em um setor que trabalha contra o tempo?
Aprendi que, quando tudo é urgente, a primeira responsabilidade de um líder é restabelecer a ordem. A equipe precisa de prioridades claras; se simplesmente transferirmos a pressão para ela, é fácil perder de vista o que realmente exige atenção.
Na televisão, o tempo é muito curto e é preciso responder rapidamente, mas também é necessário reconhecer quando uma decisão merece alguns minutos a mais de análise. É por isso que valorizo o fato de minha equipe fazer perguntas, expressar preocupações e propor alternativas. Quero que cada membro se sinta confiante para dizer: “Vejo um risco aqui”, mesmo quando todos estão sob pressão.
Aprendi também que a forma como comunicamos pode tanto facilitar quanto complicar uma decisão. Nossa recomendação deve ser clara e útil para quem tiver que colocá-la em prática.
E algo que considero essencial: a urgência não pode dominar tudo. Precisamos encontrar espaço para ensinar, delegar e reconhecer as contribuições da equipe. Ver alguém adquirir discernimento e confiança para enfrentar novos desafios é uma das maiores satisfações de um líder.
Em um grupo de televisão, como equilibrar a liberdade de expressão com a gestão de riscos legais?
É uma das responsabilidades mais delicadas do cargo, pois cada decisão envolve o direito dos cidadãos de serem informados e os direitos das pessoas que são objeto da notícia.
Acredito firmemente que precisamos de veículos de comunicação que possam investigar, questionar e analisar os fatos de forma independente. Na área jurídica, apoiamos esse trabalho, ajudando a garantir que as informações sejam publicadas com rigor e com evidências que as sustentem.
Muitas vezes, nossa contribuição começa com perguntas muito específicas: Que provas temos? Estamos distinguindo entre uma alegação e um fato comprovado? É necessário identificar a pessoa? Buscamos ouvir a versão dela? Para fornecer uma boa orientação, também é essencial compreender o contexto jornalístico e os prazos de uma redação.
Uma reclamação não significa automaticamente que uma publicação esteja incorreta, e o interesse público exige cuidado na forma como noticiamos os fatos. Minha responsabilidade é avaliar cada caso individualmente, alertar sobre os riscos e propor alternativas que nos permitam manter o valor informativo da matéria.
Esse equilíbrio é construído por meio do trabalho diário com as equipes jornalísticas. Quando há confiança e conseguimos nos comunicar de forma eficaz, contribuímos para a proteção da liberdade de expressão e da credibilidade do veículo de comunicação.
O público está consumindo conteúdo cada vez mais em plataformas digitais. Quais desafios essa mudança representa para a proteção dos direitos autorais?
O principal desafio é que o conteúdo pode ter muitas vidas. Um programa é exibido na televisão, publicado em uma plataforma e, em seguida, fragmentado em trechos para as redes sociais. Portanto, desde o momento em que o produzimos ou encomendamos, devemos considerar onde queremos distribuí-lo e como queremos utilizá-lo.
Precisamos ter clareza sobre nossos direitos em relação a cada elemento: imagens, música, performances e material de terceiros. Essa clareza nos permite usar o conteúdo com segurança e antecipar quando precisaremos de autorização adicional.
Mas existe um desafio igualmente importante: garantir que essa informação chegue a quem publica. Um contrato bem elaborado é de pouca utilidade se seus termos não se traduzirem em diretrizes claras para as equipes. É aqui que a coordenação entre os departamentos Jurídico, de Produção, de Vendas e Digital se torna crucial.
Também devemos estar preparados para agir quando nosso conteúdo circular sem autorização, defendendo nossos direitos e avaliando a resposta adequada. Proteger nosso conteúdo significa salvaguardar o trabalho de muitas pessoas e o investimento que nos permite continuar criando novas produções e apoiando talentos.
Pensando em 2027, quais desafios legais a inteligência artificial generativa representa para a indústria audiovisual?
Acho que um dos maiores desafios será entender com o que estamos concordando ao usar essas ferramentas. Às vezes, ficamos empolgados com os resultados e adiamos perguntas importantes: O que acontece com o material que enviamos? Podemos usar o que elas geram? Estamos usando a voz ou a imagem de alguém que não autorizou esse uso?
Em uma emissora de televisão, essas questões são muito específicas. Há talentos, contratos e conteúdo que ainda nem estreou. Precisamos analisar se as autorizações que já temos abrangem esses usos e discutir seu escopo com as pessoas envolvidas.
No jornalismo, o que mais me preocupa é a facilidade com que uma imagem ou gravação de áudio pode parecer real. Antes de compartilhá-las, sua origem e contexto devem ser verificados. Um erro pode afetar uma pessoa e também a credibilidade que o veículo de comunicação construiu ao longo dos anos.
Pensando em 2027, quero garantir que as equipes saibam como usar essas ferramentas e quando nos consultar. As regras precisam ser aplicáveis ao seu trabalho diário. Do ponto de vista jurídico, precisamos entender a tecnologia, ouvir quem a utiliza e responder a quaisquer dúvidas prontamente.
Você está participando do Foro Gerencias Legales Lima 2026. Qual tema da agenda desta edição você considera mais relevante para o setor de mídia?
Tenho particular interesse no painel sobre inteligência artificial, dados e cibersegurança. Na mídia, trabalhamos com muita informação e conteúdo, e cada ferramenta que incorporamos levanta questões sobre como proteger essas informações e quais responsabilidades assumimos.
Para mim, é importante que nós, do departamento jurídico, entendamos como essas ferramentas são usadas no dia a dia. Esse diálogo com as equipes nos permite antecipar problemas e fornecer recomendações que sejam realmente úteis.
Valorizo também a oportunidade de ouvir colegas de outros setores. Às vezes, enfrentamos dificuldades semelhantes, e aprender como eles as superaram nos ajuda a encarar nossos próprios desafios sob uma perspectiva diferente.
Pessoalmente, participar desses espaços também significa fazer com que minha voz seja ouvida e compartilhar o que aprendi. Gostaria de ver mais mulheres encorajadas a fazer isso, a confiar em sua experiência e a se imaginarem em posições de liderança. Aquelas de nós que já ocupam esses cargos podem contribuir dando visibilidade ao trabalho delas e abrindo oportunidades.