O Brasil já não pode ser compreendido a partir de um único centro de poder jurídico. Até 2026, o mercado deverá se estruturar como um sistema regional diversificado e tecnicamente mais exigente, com clientes que elevam o padrão dos serviços. O que antes era concentração tornou-se sofisticação distribuída.
Mateus Monteiro, head of Brazil Research, Chambers and Partners, observa essa transformação de posição privilegiada. Sua equipe não se limita a classificar escritórios: capta o verdadeiro clima do mercado. Quanto mais complexo se torna o ecossistema jurídico brasileiro, mais precisa deve ser a análise utilizada para compreendê-lo.
Um mercado complexo que exige sofisticação constante
Monteiro começa com uma definição clara: “O mercado jurídico brasileiro é dinâmico, competitivo e sofisticado”. Isso não é apenas um rótulo; é uma consequência estrutural. “De modo geral, o complexo sistema jurídico, aliado ao peso da economia nacional na América Latina, gera demanda constante tanto por consultoria jurídica quanto por contencioso, por parte de clientes nacionais e internacionais que buscam maior segurança para investir no país.”
O Brasil não é um mercado simples. Possui um ambiente regulatório complexo, setores estratégicos em transformação e um fluxo contínuo de investimentos que obriga os escritórios de advocacia a elevar seus padrões.
São Paulo está no centro de grande parte desse dinamismo. “Como centro econômico do Brasil, São Paulo abriga as sedes de grandes empresas e concentra as maiores operações. Portanto, o mercado jurídico se desenvolveu para atender uma clientela que exige serviços de alto padrão em questões complexas de significativo impacto econômico.”
Mas a centralidade paulista já não explica todo o mapa.

Rios e Minas: especialização setorial com identidade própria
O Rio de Janeiro mantém influência inegável. “Seu mercado é reconhecido por atender clientes relevantes em setores específicos, como energia, petróleo e gás, transporte marítimo, entretenimento e propriedade intelectual.” Além disso, “o Rio abriga escritórios de advocacia de renome nacional, reconhecidos por suas práticas em litígios e arbitragem.”
Os dados da pesquisa confirmam essa relevância: “Durante nossa pesquisa de 2025, identificamos 98 departamentos, distribuídos em 59 escritórios sediados nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, atuando nas áreas de Direito Societário/Comercial, Resolução de Conflitos, Direito Trabalhista e Previdenciário, Direito Imobiliário e Direito Tributário.”
Minas Gerais segue uma lógica distinta: é a força de sua economia produtiva que impulsiona a prática jurídica. “Os escritórios de advocacia em Minas Gerais se destacam pela sólida atuação na área de mineração, refletindo o desenvolvimento desse setor no estado.” Ele acrescenta: “Minas também conta com escritórios que reúnem renomados especialistas em direito tributário.” No estado, “temos um total de 63 departamentos distribuídos em 34 escritórios.”
A especialização deixou de ser uma característica exclusiva de São Paulo.
Nordeste e Sul: ambição nacional a partir das regiões
O Nordeste desponta como um dos fenômenos mais relevantes do mercado jurídico brasileiro em 2026. “As empresas do Nordeste, particularmente as sediadas na Bahia, Pernambuco e Ceará, têm apresentado desempenho regional excepcional.”
Após uma visita presencial à região, a equipe decidiu ampliar sua cobertura. “Após uma visita muito produtiva a escritórios de advocacia no Nordeste, em 2024, decidimos lançar rankings regionais específicos, abrangendo as áreas de Infraestrutura, Direito do Consumidor e Direito Imobiliário.”
Monteiro destaca um elemento estrutural decisivo: “A região distingue-se por suas faculdades de direito tradicionais, que fornecem ao mercado advogados de alta qualidade.” O resultado é mensurável: “Hoje, 90 departamentos, distribuídos em 40 escritórios, estão classificados.” Ele acrescenta um dado revelador: “Vale ressaltar que esta região possui o maior número de áreas de atuação em nosso ranking de Regiões, com um total de sete.”
No Sul, o movimento é diferente, mas igualmente estratégico. “É incomum encontrar na região grandes polos como os do Rio e de São Paulo.” No entanto, “há hoje um forte movimento de investimento por parte de empresas do Sul para expandir sua atuação e buscar presença nacional.”
Com clientes que vão “do agronegócio às empresas de tecnologia”, os escritórios do Sul demonstram “alto nível de sofisticação em transações relevantes”.
O Brasil se estrutura como um sistema, não como uma hierarquia rígida.
Áreas consolidadas e novas prioridades de mercado
Na perspectiva metodológica da Chambers, a consolidação é medida pela intensidade da concorrência e pelo volume de submissões.
“Podemos considerar as áreas mais competitivas de nossos rankings como as mais consolidadas, ou seja, aquelas em que recebemos o maior volume de formulários: Direito Societário/Fusões e Aquisições, Resolução de Litígios, Direito do Trabalho e Direito Tributário.”
São práticas em que “centenas de empresas apresentam materiais para cada uma dessas áreas, o que nos permite ter uma visão consolidada do mercado”.
Mas o mercado não é estático. “Vale ressaltar que a relevância das áreas de atuação está ligada a fatores econômicos, sociais e políticos que impactam o Brasil e o mundo.”
Por isso, novas tabelas e novas frentes de pesquisa vêm sendo incorporadas.
“No ano passado, lançamos a tabela de Jogos de Azar e Apostas, acompanhando os efeitos da regulamentação do setor; e, neste ano de eleições relevantes no país, investigaremos, pela primeira vez, as empresas que atuam na área de Direito Eleitoral.”
Também ganham destaque “áreas como Financiamento de Projetos, Desenvolvimento de Projetos e Direito Público”, que “têm apresentado tendência de crescimento nos últimos anos, especialmente por abrangerem diferentes setores e indústrias estratégicas no Brasil, como infraestrutura, energia e petróleo e gás”.
O ranking evolui porque o mercado evolui.
A verdadeira diferença: experiência do cliente, tecnologia e talento
Mateus Monteiro evita adotar tom prescritivo. “Não me considero em posição de dar recomendações aos sócios-gerentes.” Ainda assim, sua análise revela padrões claros.
A primeira conclusão é inequívoca: “Historicamente, as empresas mais bem posicionadas colocam o atendimento ao cliente como um de seus pilares.” O feedback coletado menciona “capacidade de resposta e disponibilidade dos sócios, proatividade da equipe, abordagem orientada a negócios, eficiência e organização da área administrativa”.
A consequência é direta: “Empresas que superam expectativas, oferecem experiência personalizada e surpreendem positivamente tendem a se destacar, atrair e fidelizar os melhores clientes nacionais e internacionais.”
A segunda dimensão fundamental é a tecnologia. “O uso da inteligência artificial é uma característica comum entre as empresas de primeira linha.” Ele observa que este é “um momento crucial, que também traz desafios — desde as expectativas dos clientes em relação ao impacto nos honorários até o recrutamento e o treinamento de profissionais em início de carreira.”
A terceira variável é estratégica: “Observamos uma tendência significativa de aquisição de talentos no mercado jurídico brasileiro.” Por meio de “contratações estratégicas”, os escritórios fortalecem suas equipes com profissionais que reúnem sólido conhecimento técnico e habilidades comerciais.
A competitividade já não depende apenas do prestígio histórico, mas da execução consistente.

Chambers como barômetro do mercado
O head of Brazil Research, Chambers and Partners define com precisão a missão de sua equipe:
“Eu sempre digo que nosso objetivo é retratar o mercado.”
Hoje, dez pesquisadores trabalham exclusivamente na cobertura do Brasil. E o crescimento segue uma lógica clara: “Como em uma via de mão dupla, quanto mais competitivo e sofisticado se torna o mercado jurídico, mais nossa pesquisa se expande e se aprimora para destacar os melhores talentos.”
A estratégia se apoia em dois eixos principais. “Primeiro, a criação de rankings para novas áreas de atuação.” E, em segundo lugar, “a ampliação da nossa cobertura regional.”
A sofisticação do mercado exige métricas mais refinadas. E essas métricas, por sua vez, revelam novas camadas de concorrência.
A conversa com Mateus Monteiro deixa uma conclusão clara: o mercado jurídico brasileiro não atravessa uma fase de dispersão, mas de maturidade competitiva.
Ao afirmar que “como em uma via de mão dupla, quanto mais competitivo e sofisticado se torna o mercado jurídico, mais nossa pesquisa se expande e se aprimora para destacar os melhores talentos”, ele não se refere apenas ao crescimento da Chambers. Descreve um sistema que se qualifica continuamente.
Em 2026, o Brasil já não será um mercado concentrado em um único centro de poder. Será um ecossistema regionalmente diverso, com escritórios competindo por excelência técnica, experiência superior do cliente e efetiva integração tecnológica. A sofisticação deixará de ser uma aspiração para se consolidar como o novo padrão.