Esta entrevista foi extraída do relatório “Qual modelo de escritório de advocacia prevalecerá em Portugal: as apostas dos sócios-gerentes em 2026”, uma análise que reúne a visão de diversos líderes do setor sobre as transformações que estão redefinindo o mercado jurídico português.
Com base nesse diagnóstico coletivo, aprofundamos as perspectivas de alguns dos principais protagonistas desse mercado. Um deles é José Mota Soares, sócio do Andersen e diretor do escritório em Portugal, cuja análise aponta para uma clara evolução no modelo de escritório de advocacia.
Para Soares, o futuro do setor não depende apenas do crescimento ou da adoção de novas tecnologias. O que está mudando é a forma como os escritórios de advocacia constroem seu posicionamento diante de clientes cada vez mais sofisticados e de setores econômicos em rápida transformação.
Nesse contexto, ele argumenta que as firmas que desejam se diferenciar devem combinar dois vetores estratégicos que marcarão a evolução do mercado nos próximos anos: especialização profunda por áreas, práticas e setores, e uma integração real da tecnologia na prática jurídica.
“Nossa estratégia fundamental se baseia na especialização por áreas, práticas e setores, combinada com a transformação digital.”
A competitividade dos escritórios de advocacia não é mais medida apenas pelo tamanho, mas pela profundidade setorial
Durante décadas, o posicionamento dos grandes escritórios de advocacia baseou-se na capacidade de oferecer assessoria jurídica abrangente em diversas áreas do direito. No entanto, essa lógica está evoluindo.
Segundo Mota Soares, os clientes corporativos já não procuram apenas conhecimento jurídico. Esperam consultores que compreendam a dinâmica econômica, regulatória e tecnológica de seus setores. Essa evolução está impulsionando uma mudança gradual de modelos generalistas para estruturas mais especializadas por setor.
“A especialização setorial é o que nos permite oferecer valor agregado real ao cliente. Sem esse conhecimento profundo do setor, é muito difícil competir hoje em dia.”
Do Andersen, essa estratégia se traduz no fortalecimento de diversas áreas de atuação e na formação de equipes com perfis que combinam conhecimento jurídico e tecnológico. Parte desse compromisso é o desenvolvimento da legaltech, um departamento multidisciplinar que presta consultoria em áreas como tecnologia da informação, proteção de dados, segurança cibernética e inteligência artificial.
Essa abordagem também reflete uma transformação mais ampla do mercado português. Nos últimos anos, o país tem atraído um volume crescente de investimento estrangeiro, sobretudo em setores como energia, turismo, tecnologia e infraestruturas digitais. Essa evolução está gerando novas demandas por assessoria jurídica especializada.
A inteligência artificial está redefinindo a forma como os escritórios de advocacia geram valor
A tecnologia é o segundo maior motor de transformação no setor.
Para Mota Soares, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa futura e se tornou uma ferramenta que já está alterando a forma como o trabalho jurídico é organizado. Sistemas de análise de documentos, revisão automatizada de contratos e pesquisa jurídica assistida por IA permitem que tarefas tradicionalmente demoradas sejam realizadas com muito mais eficiência.
Mas o impacto, explica ele, vai além da produtividade.
“A inteligência artificial não está apenas aprimorando a gestão do trabalho. Ela está redefinindo a proposta de valor que oferecemos aos clientes.”
Ao reduzir o tempo gasto em tarefas mecânicas, os advogados podem se concentrar mais em análises estratégicas, interpretação de regulamentos e na compreensão dos negócios dos clientes.
Nesse processo, o Andersen estabeleceu alianças com empresas especializadas em soluções de inteligência artificial e está integrando progressivamente ferramentas tecnológicas em diferentes áreas da firma.
Para Soares, a questão não é simplesmente incorporar a tecnologia, mas entender como ela modifica a organização do trabalho jurídico e a forma como o valor é entregue ao cliente.
O cliente corporativo mudou: mais sofisticação e menos tolerância à opacidade
Um dos fatores que mais estão transformando o mercado jurídico é a evolução do perfil do cliente. Os departamentos jurídicos internos estão se profissionalizando cada vez mais e desempenhando um papel mais ativo nas decisões estratégicas de suas organizações. Essa evolução está elevando o padrão de exigência em relação aos escritórios de advocacia externos.
“Os clientes avaliam rigorosamente a profundidade técnica e o conhecimento do setor que demonstramos.”
Mas a transformação não se limita ao conhecimento técnico. Ela também se reflete em uma crescente demanda por transparência e previsibilidade. Os clientes estão solicitando estimativas cada vez mais precisas de prazos, custos e probabilidades de sucesso. Também estão impulsionando a adoção de modelos de cobrança que oferecem alternativas ao sistema tradicional de faturamento por hora.
Em muitas transações, explica Soares, os escritórios de advocacia precisam apresentar propostas com honorários fixos ou modelos híbridos que combinam componentes fixos com incentivos vinculados ao resultado.
Essa evolução obriga as firmas a repensar suas estruturas operacionais e a forma como gerenciam projetos jurídicos.
Os sócios com capacidade de gerar negócios continuam sendo fundamentais, mas a liderança se torna mais complexa
Em um mercado cada vez mais competitivo, os sócios com capacidade de desenvolver negócios continuam a desempenhar um papel central na expansão dos escritórios de advocacia.
Para Mota Soares, esses perfis — tradicionalmente conhecidos como “rainmakers” — atuam como catalisadores do crescimento da firma.
“Os profissionais de destaque transcendem a função tradicional de prestar excelentes serviços jurídicos. Eles são peças-chave na expansão da carteira de clientes e na consolidação de relacionamentos institucionais duradouros.”
No entanto, a liderança em escritórios de advocacia está evoluindo para perfis cada vez mais complexos.
Além do conhecimento jurídico, os líderes do setor precisarão desenvolver uma compreensão mais ampla das estruturas regulatórias internacionais, uma visão estratégica dos negócios dos clientes e a capacidade de inspirar e desenvolver equipes.
A dimensão relacional da liderança, explica ele, tornar-se-á cada vez mais relevante em um ambiente em que a fidelização dos clientes depende tanto do conhecimento técnico quanto da qualidade das relações profissionais.
Energia, digitalização e centros de dados: setores que estão redefinindo o mercado
Em termos de atividade econômica, Mota Soares prevê que o mercado de fusões e aquisições continuará a demonstrar dinamismo em Portugal. O país permanece um destino atrativo para investidores internacionais, impulsionando transações corporativas em diversos setores.
Entre as áreas com maior potencial, destacam-se o setor imobiliário, o turismo e, cada vez mais, as indústrias ligadas à transição energética e à digitalização.
Em particular, o desenvolvimento de centros de dados destaca-se como um dos fenômenos emergentes mais relevantes.
“Portugal está emergindo como um país estratégico para o desenvolvimento de centros de dados, graças à sua localização geográfica e aos custos competitivos.”
O crescimento dessas infraestruturas responde à expansão da economia digital e ao papel da Península Ibérica como um nó de conexão entre a Europa, a África e a América.
O desenvolvimento de talentos continua sendo a verdadeira força motriz da firma
Apesar das transformações tecnológicas e econômicas, Mota Soares insiste que o fator decisivo para o crescimento dos escritórios de advocacia continuará sendo o talento.
A especialização setorial e a adoção de novas tecnologias só são possíveis se as firmas conseguirem atrair e desenvolver jovens advogados de alto potencial. Na Andersen, esse compromisso se reflete em programas de treinamento contínuo, planos de carreira estruturados e no contato precoce dos advogados com os clientes.
Ao mesmo tempo, a firma promove políticas de igualdade, diversidade e inclusão por meio de seu Comitê de Igualdade, Diversidade e Inclusão, com o objetivo de fortalecer uma cultura corporativa mais aberta e equilibrada.
Para além da tecnologia ou da evolução de certos setores econômicos, José Mota Soares acredita que o verdadeiro desafio para os escritórios de advocacia será construir organizações capazes de se adaptar a um ambiente cada vez mais complexo.
Em um mercado em que os clientes exigem maior especialização, rapidez de resposta e uma compreensão mais profunda de seus negócios, os escritórios de advocacia devem combinar conhecimento jurídico, capacidade tecnológica e desenvolvimento de talentos.
Nessa combinação, conclui ele, ficará definido o posicionamento das firmas que liderarão o mercado jurídico português nos próximos anos.
