Alguns escritórios de advocacia falam sobre inovação como uma tendência. Outros a veem como uma ferramenta. Pedro Rueda a coloca em um patamar diferente: como um facilitador — não como um substituto do advogado, mas como um catalisador de seu julgamento.
Em sua posição como codiretor da Araoz & Rueda, sua visão combina prudência estratégica com ambição seletiva. Ele não fala em expansão geográfica, mas em consolidação. Não é obcecado por volume, mas pelo equilíbrio entre eficiência, qualidade e rentabilidade sustentável. E, quando questionado sobre liderança, não recorre a fórmulas abstratas: insiste em consistência, cultura e pessoas.
Esta conversa faz parte de Líderes 2026: Visão e Desafios dos Escritórios de Advocacia Espanhóis, uma pesquisa sobre como os líderes dos escritórios estão imaginando o futuro do setor jurídico. No caso de Rueda, o foco não está no ruído, mas na direção.

IA como facilitadora, não como substituta
Para a Araoz & Rueda, a integração da inteligência artificial é um processo deliberado. Não se trata de incorporar a tecnologia por pressão competitiva, mas de compreender onde ela realmente agrega valor.
“Para nossa firma, a IA é um fator essencial para ganhar eficiência em tarefas repetitivas”, explica ele. A chave está no modelo híbrido: tecnologia e discernimento trabalhando juntos.
“Estamos comprometidos com modelos híbridos em que as tecnologias aprimoram o julgamento do advogado, garantindo qualidade, rastreabilidade e segurança em serviços multidisciplinares, mas nunca substituindo o aconselhamento especializado.”
Em uma firma que atua em ambientes complexos e multifuncionais, rastreabilidade e controle de qualidade são imprescindíveis. A IA libera tempo, mas esse tempo precisa ser reinvestido em análises estratégicas e assessoria genuína ao cliente. Essa é a equação.
Especialização jurídica e visão de negócios 360°
Se tivesse que apontar a principal aposta inovadora da firma para 2026, Rueda não falaria de uma ferramenta específica, mas de uma combinação delas.
“Nossa abordagem consiste em combinar conhecimento jurídico especializado, tecnologia jurídica e uma visão de negócios 360° na consultoria”, afirma. A ambição não é apenas ser tecnicamente excelente, mas oferecer soluções que sejam “ágeis, preditivas e sempre voltadas para o negócio e o setor específicos”.
Os clientes já não procuram respostas genéricas ou relatórios impecáveis desconectados de sua realidade operacional. Procuram compreensão do negócio, visão de futuro e a capacidade de traduzir a regulamentação em estratégia. A Araoz & Rueda pretende competir a partir dessa perspectiva: na intersecção entre especialização técnica e perspicácia empresarial.
2026: mais regulamentação, mais exigências, mais critérios
O cenário macroeconômico e regulatório que Rueda prevê para 2026 é exigente. Mais regulamentação, mais controle, mais pressão sobre o cumprimento das normas e a sustentabilidade.
“Prevemos um ambiente regulatório mais exigente e em constante mudança, com foco em conformidade, sustentabilidade e controle de riscos”, observa ele.
A resposta da empresa não é expandir sua estrutura, mas sim fortalecer seu modelo: assessoria especializada e sob medida, com “envolvimento em tempo real do sócio em cada caso” e adaptação constante ao mercado e aos negócios de seus clientes. Tudo isso, acrescenta, “sem perder de vista a relação custo-benefício, que sempre buscamos manter alinhada às suas necessidades”.
Num contexto em que muitas empresas consideram a expansão territorial, a posição é clara: apoiar os clientes em processos de investimento e transações internacionais, sim; abrir novos escritórios, não. Não há planos de expansão geográfica a curto prazo. A prioridade é a profundidade, não a dispersão.
Volume sem perda de qualidade
Um dos maiores desafios da atualidade é gerenciar áreas de alto volume sem comprometer a qualidade. A fórmula descrita por Rueda combina automação inteligente, padronização de processos e equipes especializadas. “Isso nos permite absorver picos de volume em áreas específicas sem comprometer a qualidade.”
Aqui, a tecnologia não se resume à eficiência; é uma ferramenta para proteger o padrão técnico. E esse padrão é, em última análise, a reputação da firma.
As áreas que definirão 2026
Se há áreas em que o trabalho crescerá significativamente, Rueda é claro ao apontá-las: conformidade regulatória, regulamentação da IA e proteção de dados.
“Em 2026, prevemos um crescimento significativo em áreas relacionadas à conformidade regulatória, à regulamentação da IA e à proteção de dados, que serão muito mais exigentes e recorrentes.”
A equipe está se preparando por meio de treinamento contínuo e da incorporação de perfis cada vez mais multidisciplinares. Isso porque a regulamentação da tecnologia já não é apenas uma questão jurídica; exige conhecimento técnico, visão de negócios e coordenação interfuncional.

O advogado que está chegando
Quando questionado sobre o perfil do advogado de que o mercado precisará em 2026, sua resposta transcende a excelência técnica.
Ela aponta para uma mentalidade tecnológica — a capacidade de compreender e utilizar IA e ferramentas de tecnologia jurídica para apoiar o trabalho diário —, visão de negócios para oferecer consultoria que vá além da conformidade regulatória, adaptabilidade à mudança e fortes habilidades de comunicação.
O advogado do futuro não compete com a tecnologia; ele a integra. Não apenas interpreta as regras; entende seu impacto estratégico.
Liderar com consistência e escuta ativa
A conversa inevitavelmente leva à liderança. E aqui Rueda retorna ao essencial.
“Um bom líder deve ter visão estratégica, integridade e consistência, além de clara orientação para as pessoas e para os resultados.”
Ele não menciona carisma ou autoridade formal. Fala de escuta ativa, adaptabilidade e inovação. Mas, acima de tudo, de coerência entre palavras e ações.
Ao longo de sua carreira, ele afirma ter cultivado essas características promovendo a colaboração multidisciplinar, o treinamento contínuo e a liderança por meio de relações próximas. “Essa proximidade inspira, motiva e alinha todos aos objetivos estratégicos da firma.”
Em um mercado pressionado pelo crescimento, pela regulamentação e pela transformação tecnológica, a cultura torna-se o ponto de apoio.
Na edição especial Líderes 2026, a visão de Pedro Rueda apresenta uma ideia que ressoa em muitas conversas com líderes de firmas: o mercado será mais exigente, mais tecnológico e mais regulamentado. Mas a diferença estará não apenas em quem melhor se adapta às ferramentas, e sim em quem melhor preserva o bom senso.
A Araoz & Rueda não enxerga 2026 como um ano de disrupção, mas de consolidação estratégica: integrar IA sem perder de vista os princípios fundamentais; especializar-se sem se isolar do negócio; crescer sem sacrificar a rentabilidade; gerenciar o volume sem diluir a qualidade; e liderar sem perder a coerência.
Talvez aí resida o verdadeiro desafio inovador: sustentar a identidade e a cultura quando o ambiente se acelera.
Porque, no fim das contas, a tecnologia impulsiona o crescimento. O mercado exerce pressão. A regulamentação se intensifica. Mas são as pessoas — e a consistência daqueles que as lideram — que determinam se uma firma simplesmente cresce ou de fato consolida sua posição.