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María García Aguado e Maikelyn Vieira: “O valor do advogado já não está em intervir na operação, mas em fazer parte do seu desenho”

Por Heidi Maldonado

María García Aguado e Maikelyn Vieira não entraram no mercado para ocupar um espaço, mas sim para desafiá-lo. Depois de anos trabalhando no setor de REITs (Fundos de Investimento Imobiliário), ambas identificaram uma lacuna difícil de ignorar: a assessoria jurídica existia, mas nem sempre era nela que as decisões eram tomadas. Dessa constatação , nasceu a García y Vieira Business Partner , uma firma que não só redefine um nicho de mercado, como também o papel dos advogados em transações cada vez mais complexas.

A origem: detectar uma lacuna que não era óbvia

O ponto de partida não foi uma oportunidade óbvia, mas sim o acúmulo de atritos. Ter vivenciado o setor por dentro permitiu que eles entendessem que o problema não era a falta de orientação, mas sim a abordagem adotada.

Como explica a sócia-fundadora Maikelyn Vieira, “a García y Vieira nasceu precisamente de uma visão muito prática do setor… de conhecer em primeira mão não só como ele funciona, mas também as reais necessidades que enfrenta diariamente”. Essa experiência interna tornou visível uma lacuna que, de fora, nem sempre era percebida.

María García Aguado, por sua vez, coloca a questão de forma mais direta: “Não nasceu para ser apenas mais uma alternativa, mas para preencher uma lacuna difícil de justificar em um mercado tão sofisticado quanto o imobiliário”, afirma a sócia-fundadora.

E esse vazio tinha um nome: generalismo.

Porque, embora as SOCIMIs tenham sido historicamente bem assessoradas, essa assessoria tem sido feita — como ele destaca — a partir de uma perspectiva que nem sempre se alinha com a sua natureza. “Uma SOCIMI não é uma empresa imobiliária com vantagens fiscais; é uma empresa com sua própria lógica jurídica, operacional e estratégica, totalmente singular.”

A partir daí, a conclusão era inevitável: o que era necessário não era mais conselhos, mas um tipo diferente de conselho.

O ponto de ruptura: pare de se atrasar

Esse diagnóstico os levou a questionar o modelo tradicional de consultório. Não como uma crítica superficial, mas como uma observação estrutural.

“A consultoria tradicional tende a operar de forma reativa: intervém quando há uma transação, um problema ou uma necessidade específica”, explica García Aguado. Em outras palavras, intervém quando a margem de manobra já é limitada.

Em contrapartida, sua proposta altera o momento – e, com ele, o papel – do advogado.

“Não intervimos no processo, fazemos parte do processo.”

A diferença é significativa. Significa estar presente na fase em que as decisões relevantes são tomadas, as quais, como enfatizam, não são estritamente de natureza jurídica. “As decisões relevantes não são tomadas em momentos jurídicos, mas em momentos de negócios. E se o consultor não estiver integrado a esse processo, já é tarde demais.”

Este é provavelmente o ponto mais importante de toda a conversa. Porque não se trata de como o conselho é dado, mas sim de quando e de onde ele é dado.

Da execução ao projeto: onde o valor é gerado

Desse ponto de vista, o trabalho jurídico se transforma. O foco muda da execução para o planejamento.

“A abordagem preventiva não é apenas uma fase do trabalho jurídico; é como entendemos qualquer operação”, afirma García Aguado. Em outras palavras, não se trata de antecipar problemas ocasionalmente, mas de construir desde a base.

Isso é especialmente crítico no mundo dos REITs, onde a complexidade não se resume a incidentes isolados, mas sim a uma questão estrutural. Nesse contexto, atrasos não significam a solução de um problema, mas sim a sua integração às operações.

Como sintetiza Vieira:

“O sucesso deste tipo de operação é determinado muito antes de sua execução.”

Por isso, o envolvimento deles começa antes mesmo de uma transação formal: eles analisam a lógica do veículo, a estratégia de crescimento e a governança. Em resumo, eles projetam a arquitetura sobre a qual tudo o mais será construído.

García Aguado vai ainda mais longe:

“Nosso trabalho não é apenas identificar contingências, mas também impedir que a arquitetura da operação as gere.”

Operações sem molde: quando o precedente não existe

Essa abordagem permitiu que eles participassem de operações que, até recentemente, não se encaixavam claramente no mercado: listagens duplas, aquisições entre micro REITs ou estruturas de fusão complexas.

No entanto, longe de apresentá-los como exceções, ambos concordam com uma ideia que desmantela uma certa narrativa do setor:

“Muitas dessas operações não haviam sido feitas antes não porque fossem impossíveis, mas porque exigiam uma abordagem diferente.”

Aqui reside outra lição fundamental: não existem operações padronizadas, mesmo que se tente tratá-las como tal. O verdadeiro desafio não está em aplicar as regras, mas em fazer com que a regulamentação, a estrutura corporativa e a lógica de mercado coexistam harmoniosamente.

“O que realmente faz a diferença é a capacidade de construir estruturas que funcionem na prática, e não apenas no papel”, explica García Aguado.

A partir desse momento, o advogado deixa de ser um executor e passa a fazer parte ativa do projeto.

Especialização como estrutura, não como nicho

Ao mesmo tempo, a decisão de operar como uma boutique não se deve a uma limitação, mas sim a uma estratégia deliberada.

“Não é uma consequência, mas sim uma decisão estratégica”, insiste García Aguado.

Num contexto de concentração no setor jurídico, onde a escala parece prevalecer, eles apresentam o argumento oposto: em áreas altamente técnicas, a precisão não é um valor acrescentado, é a essência do serviço.

Isso se traduz em um modelo muito específico:

  • Especialização extrema.
  • Agilidade na tomada de decisões.
  • Envolvimento direto em todas as operações.

 

“Não existem camadas intermediárias, nem diluição do conhecimento”, explicam. Quem concebe a operação é quem a executa.

E essa conexão direta, em um mercado onde a complexidade está aumentando, torna-se uma vantagem difícil de replicar.

Um mercado mais exigente, um consultor diferente

O contexto em que operam reforça ainda mais esse modelo. O mercado de REITs está caminhando para uma fase mais madura: maior consolidação, maior pressão sobre os retornos e um nível crescente de sofisticação por parte dos investidores.

Ao mesmo tempo, a regulamentação — tanto nacional quanto europeia — eleva o padrão de transparência, supervisão e governança corporativa.

Diante desse cenário, a assessoria jurídica não pode se limitar a reagir.

“Antecipar significa entender para onde o mercado está evoluindo, não apenas para onde a regulamentação está evoluindo”, afirma García Aguado.

Isso implica uma mudança de mentalidade: trabalhar a partir da realidade operacional do veículo, e não apenas do seu quadro regulamentar. E, sobretudo, projetar estruturas capazes de se adaptar a um ambiente que já não permite soluções rígidas.

Redefinir tamanho, redefinir liderança

O rápido posicionamento da firma – reconhecida pelo Legal 500 como uma “Firma Promissora” – se explica não pela velocidade, mas pelo foco.

“A especialização radical e a participação em operações pioneiras aceleram a construção de reputação”, destacam.

Mas há uma ideia que permeia essa parte da conversa e que se conecta com a mudança de modelo: o tamanho deixa de ser uma medida de capacidade.

“Como é possível que uma equipe de duas pessoas execute o que tradicionalmente é feito por equipes muito maiores?” é uma pergunta que eles dizem ouvir com frequência.

A resposta remonta à origem: foco, especialização e presença real na tomada de decisões.

Nesse sentido, a liderança jovem — e, neste caso, a liderança feminina — não se define pela estrutura, mas pela capacidade de compreender, antecipar e executar em ambientes complexos.

Se há algo que María García Aguado e Maikelyn Vieira deixam claro, é que a mudança no setor jurídico não virá apenas da tecnologia, da regulamentação ou da consolidação do mercado.

Isso virá – e já está vindo – de uma transformação mais profunda: a do papel do advogado.

“O mercado não precisa de mais assessoria jurídica, mas de um tipo diferente de assessoria.”

Uma que não chega quando a operação já está em andamento, mas quando ainda está sendo definida.
Uma abordagem que não se limita a interpretar estruturas, mas que as analisa a partir de dentro.

Porque, em um ambiente onde a complexidade é estrutural, o verdadeiro valor não está mais em resolver problemas, mas em evitar que eles existam.

E é nessa mudança – silenciosa, mas decisiva – que o futuro da profissão jurídica começa a ser redefinido.

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