Esta conversa surge do relatório “Qual modelo de escritório de advocacia prevalecerá em Portugal: as apostas dos sócios-gerentes em 2026” uma análise que reúne a visão de vários líderes do setor sobre as transformações que estão a marcar a evolução do mercado jurídico português.
Nesse contexto, José Luís Arnaut, managing partner do CMS Portugal, apresenta uma perspectiva que reflete a realidade das grandes redes internacionais de escritórios de advocacia. Num ambiente em que a concorrência se intensifica, os clientes se tornam cada vez mais exigentes e a tecnologia redefine a prática jurídica, a dimensão global torna-se um fator determinante para a competitividade.
Para Arnaut, o futuro dos escritórios de advocacia depende não apenas do seu posicionamento no mercado local, mas também da sua capacidade de se integrar a estruturas internacionais capazes de investir em inovação, compartilhar conhecimento e operar com uma estratégia comum.
“A competitividade dos escritórios de advocacia dependerá cada vez mais de sua escala internacional e de sua capacidade de investir em tecnologia.”
Escala internacional como novo fator de competitividade
O mercado jurídico português atravessa um momento de transformação marcado pelo aumento da concorrência, pela internacionalização das operações comerciais e pela crescente complexidade das questões jurídicas.
Nesse contexto, os escritórios que fazem parte de redes internacionais têm uma vantagem estrutural: a possibilidade de combinar conhecimento local com uma plataforma global de recursos, experiência e clientes.
Para José Luís Arnaut, essa dimensão internacional constitui um dos pilares fundamentais da estratégia da CMS.
O objetivo do escritório até 2030 é claro: consolidar-se como “o principal escritório global de advocacia orientado por relacionamentos”, uma ambição que reflete não apenas um posicionamento de mercado, mas também uma forma específica de entender a organização da prática jurídica.
Segundo Arnaut, essa estratégia está estruturada em torno de três pilares.
- O primeiro está relacionado à estrutura organizacional e ao desenvolvimento de negócios, apoiados por ferramentas compartilhadas e por uma visão estratégica comum sobre a evolução do mercado.
- “O segundo pilar é a integração da inovação e do talento. Hoje, quem não investe em inovação fica para trás”.
- O terceiro pilar centra-se na comunicação e na liderança, elementos essenciais para a coordenação de uma organização do porte da CMS, na qual a transparência e a participação ativa dos parceiros na definição da direção estratégica do escritório são fundamentais.
Inovação em escala: quando a tecnologia se torna uma vantagem estrutural
A tecnologia tornou-se um dos fatores que mais transformam o setor jurídico. No entanto, nem todos os escritórios de advocacia estão em condições de fazer os investimentos necessários para integrar efetivamente ferramentas tecnológicas avançadas na prática diária.
No caso do CMS, a escala internacional da organização permite o desenvolvimento de projetos tecnológicos de grande porte.
“A inteligência artificial e as novas ferramentas tecnológicas estão transformando profundamente a forma como trabalhamos e prestamos nossos serviços.”
Um exemplo claro dessa estratégia é a adoção do Harvey, uma das ferramentas de inteligência artificial mais avançadas utilizadas no setor jurídico. A CMS é atualmente o escritório de advocacia com a maior implantação global dessa tecnologia.
“Todos os nossos advogados, desde estagiários até sócios, utilizam ferramentas de inteligência artificial.”
Essa integração generalizada melhora a eficiência operacional e acelera processos que tradicionalmente exigiam tempo e recursos consideráveis. Mas, além da eficiência, Arnaut enfatiza que a verdadeira transformação reside na capacidade de oferecer aos clientes um serviço mais ágil e bem informado.
“Isso constitui claramente uma vantagem comparativa em relação à concorrência.”
Na era da inteligência artificial, o relacionamento com o cliente continua sendo fundamental
Apesar do impacto da tecnologia, Arnaut insiste que a essência da profissão jurídica permanece profundamente humana. “O tempo passa, mas as expectativas dos clientes continuam as mesmas: que seus casos sejam resolvidos”
O que mudou foi a forma como os escritórios de advocacia organizam seu trabalho para atingir esse objetivo.
As novas ferramentas permitem maior eficiência na gestão do tempo e no processamento de informações jurídicas, mas não substituem os elementos que historicamente definiram a relação entre advogado e cliente.
“Nada substitui a proximidade e a disponibilidade no relacionamento com o cliente.”
Para o managing partner do CMS Portugal, a advocacia continua sendo, acima de tudo, uma profissão de confiança, baseada na capacidade de compreender as necessidades do cliente e orientá-lo em processos decisórios complexos. “Essa continua sendo uma profissão de pessoas a serviço de pessoas.”
Liderando um escritório de advocacia global: negócios, comunicação e compreensão do cliente
Em um mercado cada vez mais competitivo, a capacidade de desenvolver negócios continua sendo uma das principais competências dos escritórios de advocacia.
No entanto, Arnaut acredita que a liderança na advocacia contemporânea deve ser entendida como uma responsabilidade compartilhada dentro da organização.
“No CMS Portugal, cada sócio e cada advogado conta.”
Além da captação de clientes, os advogados devem desenvolver uma combinação de habilidades que inclui excelência técnica, capacidade de comunicação e um profundo conhecimento do negócio do cliente. “Nada substitui a qualidade e a disponibilidade”, afirmou ele.
Em um ambiente em que os clientes exigem respostas rápidas e soluções estratégicas, a capacidade de compreender o contexto empresarial em que operam torna-se um elemento essencial da assessoria jurídica.
Tecnologia, energia e defesa: os setores que moldarão o crescimento
O mercado jurídico evolui sempre em paralelo com a economia. Para Arnaut, compreender a dinâmica econômica é essencial para antecipar as áreas de atuação que apresentarão maior atividade jurídica nos próximos anos. “O setor jurídico não é uma ilha”, afirma.
Nesse sentido, a CMS produz uma análise anual do mercado europeu de fusões e aquisições com base em consultas a executivos seniores e empresas de private equity. O relatório “Fusões e Aquisições na Europa 2026: Negócios, Dúvidas e Divergências” identifica diversos setores com fortes perspectivas de crescimento.
Entre eles, o setor de TMC (tecnologia, mídia e comunicações) se destaca, figurando como a área com maior potencial de crescimento na Europa nos próximos doze meses.
Ao mesmo tempo, o atual contexto geopolítico aponta para um aumento da atividade nos setores de energia e defesa, que vêm adquirindo crescente importância na economia europeia.

Talento, cultura e senso de pertencimento em uma organização global
Atrair e reter talentos tornou-se uma prioridade máxima para os escritórios de advocacia. Segundo Arnaut, a proposta de valor que um escritório oferece aos seus profissionais deve ser construída sobre uma combinação equilibrada de desenvolvimento profissional, bem-estar e cultura organizacional.
“Atrair e reter talentos começa com uma proposta de valor clara.”
No CMS Portugal, essa proposta inclui políticas de trabalho flexíveis, benefícios adaptados às diferentes fases da vida profissional e planos de carreira que permitem aos advogados visualizar sua trajetória dentro da firma.
A organização também dá especial ênfase ao fortalecimento de sua cultura interna. Para Arnaut, o senso de pertencimento e o comprometimento de longo prazo são elementos fundamentais para a construção de equipes fortes em um escritório global.
O verdadeiro legado da liderança: preparar a próxima geração
Além da estratégia de negócios ou da inovação tecnológica, Arnaut acredita que a liderança na área jurídica também possui uma dimensão geracional. “Aqueles de nós com mais experiência têm a obrigação de deixar um legado”, afirmou.
Esse legado é construído por meio da transmissão de conhecimento às novas gerações de advogados. Para o managing partner do CMS Portugal, manter uma relação próxima com os profissionais mais jovens e apoiar seu desenvolvimento profissional é uma das responsabilidades fundamentais de quem ocupa posições de liderança, já que o conhecimento acumulado ao longo dos anos constitui um dos ativos mais valiosos da profissão jurídica.
Num mercado jurídico cada vez mais globalizado e tecnologicamente avançado, José Luís Arnaut acredita que a competitividade dos escritórios de advocacia dependerá de sua capacidade de combinar três elementos essenciais: escala internacional, inovação tecnológica e liderança organizacional.
A tecnologia continuará a transformar a prática jurídica, e a concorrência se intensificará com a entrada de novos participantes no mercado. Mas mesmo nesse contexto de mudanças aceleradas, Arnaut acredita que os fundamentos da profissão permanecerão intactos.
Porque, em última análise, a advocacia continuará sendo uma atividade baseada na confiança, no conhecimento acumulado e na relação direta entre advogado e cliente — uma profissão que continua sendo, acima de tudo, uma profissão de pessoas a serviço de pessoas.
