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Inês Arruda, do Pérez-Llorca em Lisboa: a liderança feminina que impulsiona o direito internacional

Sócia e copresidente do escritório de Lisboa da Pérez-Llorca, Inês Arruda lidera uma prática jurídica transfronteiriça em um dos projetos internacionais mais ambiciosos do setor jurídico ibérico. Nesta última conversa da nossa série especial para o Dia Internacional da Mulher, ela reflete sobre liderança, gestão global de talentos e o papel das advogadas na evolução das firmas internacionais

Por Heidi Maldonado

Após conversas com Sara Molina, Natalia Martos e Sofía Acuña, encerramos este especial com a visão de Inês Arruda, sócia e copresidente do escritório de Lisboa da Pérez-Llorca — uma das profissionais que hoje representa com maior clareza a dimensão internacional que o direito europeu vem adquirindo.

Com mais de duas décadas de experiência assessorando em questões trabalhistas complexas e em transações corporativas internacionais, Arruda construiu uma carreira marcada por decisões profissionais que combinam ambição, bom senso e capacidade de adaptação. Iniciou sua trajetória em um grande escritório internacional, posteriormente fundou uma boutique especializada em direito empresarial e hoje integra um projeto internacional em rápida expansão. Essa combinação de experiências permitiu que ela compreendesse o direito não apenas como uma prática técnica, mas também como uma ferramenta estratégica para a gestão e o crescimento das organizações.

Sua liderança também reflete uma transformação mais profunda do setor jurídico. Em um momento em que os escritórios de advocacia operam cada vez mais em múltiplas jurisdições e os clientes tomam decisões globais em tempo real, a profissão jurídica exige profissionais capazes de coordenar talentos, integrar diferentes culturas profissionais e antecipar os riscos que acompanham as decisões de negócios.

A partir de Lisboa, Arruda participa ativamente desse processo. Sua compreensão da profissão — tecnicamente exigente, orientada para os negócios e centrada na gestão de equipes internacionais — ajuda a explicar por que sua voz é especialmente relevante para entender os rumos da liderança em firmas globais.

Porque, em última análise, sua trajetória demonstra algo que se torna cada vez mais evidente no setor: a profissão jurídica global já não é definida apenas pela localização dos escritórios, mas por quem é capaz de liderar o talento e as decisões que os conectam.

A profissão jurídica em um ambiente internacional

A chegada de Inês Arruda à Pérez-Llorca, em 2024, para reforçar a estratégia internacional da firma em Lisboa, confirmou uma convicção que há anos orienta sua carreira: o direito global não se define pelo número de escritórios que uma firma possui em diferentes países.

“Uma prática verdadeiramente global não se trata de ter escritórios espalhados pelo mundo, mas de ser capaz de coordenar equipes e decisões em várias jurisdições em tempo real.”

Nessa perspectiva, o direito torna-se uma ferramenta direta de geração de valor para as organizações. Liderar uma prática transfronteiriça implica compreender como as empresas operam quando crescem, se reorganizam, se internacionalizam ou realizam aquisições em diferentes países.

Arruda define sua atuação como direito empresarial, no qual as questões trabalhistas são abordadas sob uma perspectiva estratégica. Não se trata apenas de interpretar normas, mas de gerir tudo o que se relaciona às pessoas dentro de uma organização e antecipar como essas decisões podem impactar os negócios.

Essa abordagem exige uma compreensão profunda da estrutura e da cultura das empresas que ela assessora.

Gerir talentos em uma firma global

Para Inês Arruda, a liderança em uma empresa internacional não se define apenas pela gestão de assuntos complexos ou pela expansão da firma para diferentes mercados. O verdadeiro desafio está na gestão de talentos em um ambiente profissional que se transformou profundamente nos últimos anos.

“O grande desafio da liderança hoje não é exclusivo das mulheres. Consiste em gerir talentos em um contexto híbrido, com equipes cada vez mais internacionais e expectativas geracionais muito diferentes.”

Nesse contexto, a liderança exige compreender como as novas gerações trabalham e como o equilíbrio entre vida profissional e pessoal se articula atualmente — uma noção que, ela reconhece, nem sempre é intuitiva para aqueles que foram formados em modelos tradicionais de exercício da profissão.

Essa reflexão se conecta diretamente com sua compreensão da prática trabalhista. Para Arruda, o direito do trabalho não é uma área isolada dentro da empresa, mas uma função estratégica na gestão das organizações.

“As decisões sobre as pessoas determinam a execução, o risco e a estabilidade de uma empresa.”

É por isso que ela acredita que o direito do trabalho é provavelmente a área que melhor reflete as tensões pelas quais as organizações passam atualmente: inovação, produtividade e bem-estar.

Em um ambiente internacional, a liderança envolve criar as condições para que as equipes trabalhem com diligência e consistência, garantindo padrões comuns de qualidade e, ao mesmo tempo, mantendo autonomia na execução.

É nesse ponto que meritocracia, responsabilidade e transparência deixam de ser conceitos abstratos e passam a se tornar práticas diárias, tanto na gestão do trabalho quanto no desenvolvimento de carreiras profissionais, incluindo trajetórias não lineares.

Arruda também destaca que uma das chaves para o projeto da Pérez-Llorca é a confiança que a firma deposita em seus sócios.

“Pérez-Llorca tem total confiança em seus sócios e nos dá espaço para desenvolver nossa área de atuação da melhor maneira possível. Essa liberdade vem acompanhada de responsabilidade.”

Em relação à questão de gênero, Arruda reconhece que “em todos os modelos em que trabalhei, o trabalho é intenso, então organização e disciplina fazem toda a diferença”. Por isso, ela acredita que a liderança profissional deve ser construída com base no mérito e na responsabilidade individual.

“O essencial é não partir da premissa de que ser mulher, por si só, nos concede mais direitos.”

Uma identidade, uma cultura

O crescimento internacional da Pérez-Llorca — com a consolidação do projeto em Portugal e a abertura de novos escritórios em diferentes mercados — também traz o desafio de integrar equipes diversas sem perder a identidade da firma.

Para Arruda, a chave está no conceito de “uma única empresa”.

Lisboa, Madri ou Londres funcionam como diferentes portas de entrada para a mesma cultura profissional, baseada na excelência técnica, na proximidade com os negócios do cliente e na colaboração entre as áreas de atuação.

“Não replicamos modelos isolados; integramos talentos em uma matriz comum de exigência técnica e atendimento ao cliente.”

A mobilidade interna e a participação em equipes multijurisdicionais ajudam a fortalecer essa identidade compartilhada. Um advogado em Lisboa deve sentir-se parte do mesmo projeto que um colega em Madri ou em qualquer outro escritório da firma.

Na opinião dela, esse equilíbrio entre o conhecimento local e os padrões internacionais é um dos elementos que os clientes mais valorizam.

A evolução estratégica do direito do trabalho

Com mais de 20 anos de experiência em assessoria em questões trabalhistas complexas e em operações de fusões e aquisições, Arruda observou como a prática trabalhista evoluiu para assumir um papel cada vez mais estratégico dentro das organizações.

Hoje, explica ela, o sucesso de muitas transações depende tanto da integração cultural e organizacional das equipes quanto da estrutura financeira ou corporativa da operação.

Por isso, a assessoria trabalhista já não se limita à validação de aspectos legais. Trata-se de antecipar riscos, identificar tensões dentro das organizações e garantir que as decisões de negócios possam ser implementadas com segurança em diferentes jurisdições.

“Inovação não se trata apenas de usar novas ferramentas. Trata-se de mudar o método.”

Para Arruda, a verdadeira inovação na assessoria jurídica está no desenvolvimento de uma abordagem preventiva, baseada em dados, voltada a facilitar decisões estratégicas.

O que a liderança jurídica internacional exige hoje?

Ao conversar com jovens advogadas que aspiram a carreiras internacionais, Arruda enfatiza a importância de abraçar essa ambição desde o início. A exposição a diferentes contextos culturais e jurídicos — seja por meio de estudos no exterior, estágios ou projetos transfronteiriços — proporciona a perspectiva necessária para atuar em ambientes globais.

Mas ela também alerta que a liderança internacional exige mais do que excelência técnica.

“Ser tecnicamente impecável é essencial, mas não suficiente.”

Quem aspira à liderança precisa compreender o negócio do cliente, interpretar prioridades estratégicas e coordenar equipes diversas com clareza e consistência. Arruda também destaca um aspecto que considera fundamental e que, em sua opinião, às vezes é negligenciado pelas gerações mais jovens: o conhecimento geral. Ler, compreender o que está acontecendo no mundo e entender como diferentes setores econômicos operam permite que advogados dialoguem com executivos e conselhos de administração a partir de uma perspectiva mais ampla.

Porque, no mercado jurídico atual, a liderança exige uma combinação cada vez mais ampla de competências: advogados tecnicamente impecáveis, mas também profissionais capazes de gerir equipes, interagir com conselhos de administração e desafiar o status quo com propostas concretas.

A trajetória profissional de Inês Arruda reflete a evolução da liderança em escritórios internacionais. Em um mercado cada vez mais globalizado, a advocacia exige não apenas excelência técnica, mas também a capacidade de integrar equipes diversas, compreender diferentes culturas corporativas e antecipar decisões estratégicas.

Ao longo deste especial para o Dia Internacional da Mulher, as conversas com Sara Molina, Natalia Martos, Sofía Acuña e Inês Arruda revelaram diferentes formas de liderança no setor jurídico.

Caminhos distintos, modelos de firmas diversos e diferentes áreas de especialização, mas uma conclusão comum: a liderança na profissão jurídica está mudando.

Cada vez mais mulheres participam ativamente dessa transformação, ampliando as formas de liderar equipes, desenvolver projetos jurídicos e influenciar decisões estratégicas dentro das organizações. Afinal, o futuro do setor jurídico não será definido apenas pela evolução dos escritórios de advocacia, mas pelas pessoas capazes de liderar o talento, as decisões e as culturas que conectam esse mercado global.

E, ao longo desse processo, a liderança feminina continuará sendo uma das forças motrizes da próxima etapa da profissão jurídica.

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