ENTREVISTA

João Miranda de Sousa, do Garrigues: “Hoje já não basta dominar áreas jurídicas específicas”

ENTREVISTA

Mafalda Barreto, do Gómez-Acebo & Pombo: “Clientes já não procuram apenas advogados, mas parceiros estratégicos”

Leonardo Berrio: “Temos o privilégio de testemunhar como a regulamentação ganha vida e se torna o catalisador que possibilita a existência de empresas e entidades.”

Leonardo Berrio, Diretor Jurídico da ESENTTIA, reflete sobre a evolução do advogado interno na América Latina: de um papel reativo a um parceiro estratégico da alta administração. Governança corporativa, transição energética e tecnologia jurídica são os temas centrais de uma conversa sobre o presente e o futuro da gestão jurídica corporativa.

Por Heidi Maldonado

Leonardo Berrio é o diretor jurídico da ESENTTIA, uma das principais empresas petroquímicas da América Latina, com mais de 15 anos de experiência no setor de petróleo e gás. Em uma única função, ele acumula as responsabilidades de secretário-geral e diretor jurídico. Nesta entrevista à Líder Legal, ele discute a integração da governança corporativa e da função jurídica, o papel do departamento jurídico na transição energética e os desafios ESG, e por que a tecnologia jurídica deixou de ser uma opção para se tornar a espinha dorsal da gestão jurídica corporativa.

Você dedicou toda a sua carreira ao setor industrial e corporativo colombiano, culminando em seus cargos de Secretário-Geral e Diretor Jurídico da ESENTTIA. Quais foram os momentos decisivos que moldaram seu perfil como advogado corporativo e o que o levou a optar pela prática jurídica interna em vez de uma carreira em um escritório de advocacia?

Ao longo da minha carreira no setor de Petróleo e Gás, que já dura mais de 15 anos, muitas pessoas tendem a presumir que sempre fui advogado interno. No entanto, passei meus primeiros anos de carreira em um escritório de advocacia, por aproximadamente cinco anos, onde tive a oportunidade de trabalhar tanto na área de consultoria quanto na de contencioso, principalmente em questões envolvendo entidades públicas. Isso foi uma sorte, pois me permitiu desenvolver uma perspectiva abrangente; compreendi que a assessoria jurídica e a resolução de disputas estão intrinsecamente ligadas. Ter trabalhado em ambas as frentes me deu uma sensibilidade particular para analisar riscos e antecipar cenários, entendendo desde o início como decisões jurídicas podem se transformar em conflitos se não forem gerenciadas adequadamente.

Minha decisão de ingressar em uma função interna decorre da minha paixão pelo Direito e do meu desejo de compreender como as diferentes teorias jurídicas se traduzem na realidade de cada atividade realizada pelo setor empresarial. Nesse sentido, minha experiência confirma que, como advogados internos, temos o privilégio de testemunhar como o Direito ganha vida e se torna o catalisador que possibilita a existência de empresas e organizações.

“Ter estado dos dois lados deu-me uma sensibilidade particular para analisar riscos e antecipar cenários, compreendendo desde o início como as decisões legais podem escalar para conflitos se não forem geridas adequadamente.”

Na ESENTTIA, você combina duas funções que são separadas em muitas empresas: Secretário(a) Geral e Diretor(a) Jurídico(a). Como você gerencia essa dualidade na prática e como isso enriquece — ou prejudica — o desempenho de cada função?

Ao longo da última década, testemunhei como grandes empresas colombianas integraram às Vice-Presidências Jurídicas Corporativas as funções que tradicionalmente eram divididas entre uma Secretaria Geral, focada em assuntos corporativos, e, por outro lado, o Departamento Jurídico, responsável por todas as questões jurídicas, exceto as de natureza corporativa. Esse modelo é muito semelhante ao das empresas anglo-saxônicas, onde o Diretor Jurídico (CLO) é responsável por supervisionar toda a estratégia jurídica da organização, os riscos jurídicos, bem como os assuntos regulatórios e corporativos.

Na minha experiência, isso se deve ao fato de o papel clássico do departamento jurídico ter claramente migrado de uma função reativa e isolada para a de um aliado estratégico da empresa na tomada de decisões, o que complementa perfeitamente as boas práticas de governança corporativa, visto que o CEO de cada empresa e seu Conselho de Administração necessitam de uma posição jurídica estratégica consolidada, e não fragmentada em diversas áreas da empresa.

É fundamental ter sempre em mente que o direito societário, que sustenta a gestão corporativa tradicionalmente tratada pela Secretaria Geral, não está isolado dos diversos ramos do direito sob a alçada do Departamento Jurídico no que diz respeito à governança corporativa. Devemos lembrar que ambas as áreas compartilham uma base jurídica comum e, consequentemente, não é aconselhável que a alta administração tenha um arcabouço jurídico fragmentado dentro da organização.

Por exemplo, era comum encontrar empresas com departamentos separados de Governança Corporativa e Jurídico, cujos líderes eram pares e se reportavam diretamente ao CEO. Isso inevitavelmente levava a divergências de opiniões jurídicas nos níveis mais altos da organização, sem nenhum órgão adicional para resolver as diferenças conceituais entre os dois líderes jurídicos.

Nesse sentido, observa-se atualmente uma tendência marcante nas empresas colombianas de buscar que seu executivo jurídico de mais alto nível não apenas gerencie o risco jurídico da organização, mas também, como aliado estratégico da empresa, seja responsável pela gestão da governança corporativa, acompanhada, em muitos casos, por atividades como Compliance, gestão de crises e até mesmo sustentabilidade, que tradicionalmente escapavam à gestão direta do departamento jurídico.

“Não é conveniente para a alta administração de uma empresa que os critérios legais da organização sejam fragmentados.”

A ESENTTIA opera em um setor sob crescente pressão regulatória e de reputação em relação a questões ambientais, economia circular e transição energética. Como o departamento jurídico está respondendo a esses desafios e qual o papel da área jurídica na estratégia ESG da empresa?

Nos setores de Petróleo e Gás e Petroquímica, tive a oportunidade de compartilhar e trabalhar em estreita colaboração com mentes brilhantes que estão impulsionando a inovação a níveis que pareciam impossíveis até recentemente, e que agora são uma realidade graças à crescente conscientização de que operações seguras podem ser realizadas minimizando ou mesmo eliminando seus principais impactos ambientais. O aspecto legal é de particular importância, que eu poderia resumir em três componentes:

Em primeiro lugar, num ambiente regulatório sujeito a mudanças constantes, que podem inclusive levar à paralisação de uma operação caso seja impossível cumpri-las a curto prazo, é nosso dever dispor de uma estratégia de gestão regulatória que nos permita antecipar e conduzir os debates pertinentes perante as autoridades reguladoras, com o necessário apoio de especialistas técnicos, para garantir que a regulamentação reflita o que a realidade tecnológica, técnica e ambiental exige e permite.

O segundo componente está relacionado ao fato de que a Colômbia, como muitos países latino-americanos, possui um sistema jurídico altamente codificado; ou seja, acreditamos que a realidade só existe se estiver registrada em lei. A indústria não é exceção a esse cenário e, consequentemente, quanto mais especializada a atividade econômica, mais complexas as regulamentações e normas aplicáveis. Portanto, um dos principais desafios para os líderes jurídicos nessas organizações é identificar o universo de normas que regem nossa atividade e, posteriormente, designar os responsáveis por garantir a conformidade. Caso contrário, a organização fica exposta a uma miríade de sanções que podem inclusive levar à suspensão das operações. Isso exige ferramentas dinâmicas; os marcos regulatórios tradicionais e obsoletos, compreendidos e consultados apenas por advogados, são insuficientes. Em vez disso, são necessárias ferramentas tecnológicas a serviço da empresa, que tornem a gestão regulatória e normativa dinâmica.

Vou ilustrar o terceiro e último componente. Em 2022, a primeira molécula de hidrogênio verde do país foi produzida na Refinaria de Cartagena. Isso significou que, do ponto de vista jurídico, a estratégia legal do projeto teve que ser elaborada do zero em um ambiente regulatório inexistente na época. Isso destaca a necessidade de o departamento jurídico apoiar e desenvolver a estrutura contratual, regulatória e de governança corporativa necessária para promover iniciativas de inovação e transição energética, especialmente quando, em muitos casos, não existe uma estrutura prévia porque tais iniciativas não foram implementadas antes no país ou na América Latina.

De forma geral, a área jurídica desempenha um papel fundamental na estratégia ESG, não apenas do ponto de vista da conformidade, mas também como facilitadora da transformação sustentável da empresa.

“A área jurídica deve apoiar e conceber o quadro contratual, regulamentar e de governação corporativa necessário para promover iniciativas de inovação e transição energética, especialmente quando não existe um quadro prévio porque tal não foi feito antes no país ou na América Latina.”

A discussão sobre o papel do Compliance Officer na América Latina evoluiu: de guardião da conformidade a parceiro estratégico da alta administração. Como você está vivenciando essa mudança de paradigma na ESENTTIA e quais limitações ou resistências você ainda enfrenta?

Lembremos que, no passado, os departamentos jurídicos eram concebidos como gestores do risco jurídico da empresa, sendo eminentemente reativos e isolados do ambiente estratégico corporativo, intervindo na maioria dos casos depois de as decisões já terem sido tomadas, atuando, consequentemente, como uma área de contenção ou, por que não dizer, como a área que recolhia os cacos deixados para trás em consequência de uma decisão que expôs a entidade.

Assim, há vários anos, venho promovendo um modelo de gestão e uma visão para a área jurídica, que recebeu diversas denominações, mas que, em última análise, se enquadra no que os anglo-saxões chamam de modelo de Parceiro Jurídico de Negócios (LBP, na sigla em inglês), cujo objetivo é gerar valor agregado para a empresa por meio da gestão jurídica, o que implica uma mudança de filosofia na forma como enxergamos o advogado interno.

Logicamente, essa mudança de filosofia deve ser acompanhada por uma estratégia jurídica clara para a organização, incluindo pilares estratégicos alinhados aos indicadores estratégicos financeiros e operacionais que a empresa almeja alcançar. Dessa forma, o departamento jurídico: (i) se envolve desde os estágios iniciais do planejamento de iniciativas e projetos, (ii) os riscos jurídicos são adequadamente previstos, (iii) a execução e a tomada de decisões são agilizadas, (iv) há menos litígios e imprevistos, e (v) o resultado mais importante é alcançado: potencializar os resultados almejados por nossos stakeholders.

Em minha função, tive a sorte de trabalhar com presidentes que apoiam e abraçam a área jurídica sob esse conceito, tornando-se patrocinadores desse modelo de gestão, que é crucial para permear a cultura organizacional em todos os níveis, mudando a percepção tradicional para uma em que as pessoas entendam que nosso papel é ser um parceiro estratégico de negócios, focado em viabilizar decisões, gerenciar riscos e promover um modelo de governança corporativa sustentável.

“O modelo de Parceiro Jurídico de Negócios visa gerar valor agregado para a empresa por meio da gestão jurídica: isso significa uma mudança de filosofia em relação à forma como vemos os advogados internos.”

Você participará do Foro Gerencias Legales Miami 2026, organizado pela Gericó Associates. O que te motiva a estar lá e qual é o principal debate que deve estar na agenda dos gestores jurídicos latino-americanos hoje?

Sempre foi um privilégio participar de eventos como o Foro Gerencias Legales Miami 2026, organizado pela Gericó Associates, que reúne profissionais jurídicos de destaque com quem compartilho o interesse comum em promover a evolução da gestão jurídica interna de empresas. Entre os aspectos que mais valorizo nesses fóruns está a oportunidade de compartilhar experiências, aprender como outros abordam os mesmos problemas ou desafios que enfrento e descobrir as últimas tendências em gestão jurídica corporativa. Estou confiante de que a edição de Miami de 2026 será um fórum valioso para reflexão, com discussões jurídicas que demonstram a aplicação prática do direito corporativo.

Da programação elaborada, todos os painéis parecem relevantes para as principais análises que estamos realizando no mundo do direito empresarial e societário, embora eu deva confessar que o painel sobre Transformação Digital e Governança Corporativa me interessa particularmente, pois estou convencido de que as questões associadas à tecnologia jurídica são a espinha dorsal transversal da nossa gestão; ou seja, não são acessórios, mas um componente estrutural, e se não estivermos na vanguarda dessas mudanças, corremos o risco de ficar para trás em relação à tecnologia, que é uma ferramenta estratégica para o presente e o futuro da nossa profissão.

“Estou convencido de que as questões de tecnologia jurídica são a espinha dorsal da nossa gestão: não são acessórios, mas sim um componente estrutural.”

Colômbia, setor industrial, mais de 15 anos acumulando experiência. O que resta de Leonardo Berrio quando ele fecha seu laptop? E o que ele diria hoje a um recém-formado em direito que quer liderar o departamento jurídico de uma empresa do porte da ESENTTIA?

Sou apaixonada por viver a vida ao máximo. Por isso, quando fecho o computador, tento voltar às coisas que, além da minha paixão pelo direito, dão sentido à minha existência.

O mar ocupa um lugar especial na minha vida. Sempre que tenho oportunidade, adoro mergulhar com a minha filha ou surfar com o meu filho nas águas da minha amada Cartagena das Índias. Nesses momentos, a minha mente vagueia para outro mundo, rodeado de calma, tranquilidade e beleza. Também aproveito todas as oportunidades para jogar basquetebol com os meus amigos, aqueles com quem jogo desde criança em todas as quadras da minha cidade.

Claro que nem tudo é pura adrenalina; também sou apaixonado por leitura, com especial interesse em romances históricos, principalmente os ambientados na Roma Antiga. Sinto-me atraído pela possibilidade de ser transportado, através de suas páginas, para aquela era que lançou muitas das bases do nosso sistema jurídico.

Por fim, para os advogados que se aventuram na árdua, porém recompensadora, trajetória do direito empresarial, recomendo que estejam cientes das mudanças significativas que ocorreram na profissão, mudanças que não são ensinadas nas universidades. Portanto, é essencial desenvolver habilidades que agreguem valor ao seu trabalho, como pensamento estratégico, análise financeira e contábil, inteligência artificial aplicada ao direito, ESG (Ambiental, Social e de Governança), design jurídico e outras. Mais importante ainda, se você é tão apaixonado por direito quanto eu, jamais deixe essa chama se extinguir diante dos inevitáveis desafios que enfrentará ao longo desse caminho. Quando isso acontecer, retorne ao básico e lembre-se do senso de justiça que o inspirou a se dedicar a esta nobre e grandiosa profissão.

Artigos relacionados

Editar Imagenes de Higthligths

You are not permitted to submit this form!







    Editar Imagenes de Higthligths

    You are not permitted to submit this form!

    Editar reconocimientos - Latin Lawyer

    Contenido Reconocimiento Latin Lawyer*

    Editar reconocimientos - Leaders League

    Contenido Reconocimiento Leaders League*

    Editar link equipo

    Editar Oficinas

    Editar de highlight

    Editar reconocimientos - Legal 500

    Contenido Reconocimiento Chambers*

    Editar Reconocimientos - Chamber

    Contenido Reconocimiento Chambers*

    Editar Banner

    Selecciona un Banner*

    Editar reconocimientos

    Editar reconocimientos

    Contenido Reconocimiento Interno*

    Editar resumen

    Editar sectores de actividad

    Sectores de Actividad*

    Editar áreas de practica

    Areas de practica*

    Editar tag

    Tags*

    Edita otros datos de interés

    You are not permitted to submit this form!

    Editar logo

    You are not permitted to submit this form!

    Editar datos de firma