Todos os anos ouço frases semelhantes de vários colegas internos: a rapidez da mudança deixou de ser uma tendência e passou a ser a norma, ou a pressão para se adaptar avança mais rápido do que nunca. E eu concordo. Entre a disrupção tecnológica, a pressão dos custos, as crescentes expectativas do negócio e uma demanda permanente por talentos qualificados, a função jurídica vive um momento que teria parecido extraordinário há poucos anos. Hoje é simplesmente a normalidade.
O que vemos na América Latina não é diferente do que já mostram vários estudos de grandes consultorias dos EUA e do Reino Unido: as equipes jurídicas estão passando por uma profunda transformação. E, mesmo assim, temos que continuar operando, entregando resultados e mantendo os negócios em movimento. Nesse cenário, estas são, na minha experiência, as prioridades que marcarão os departamentos jurídicos da região em 2026.
1. Tecnologia e inovação como prioridade central
As análises mais consistentes do mercado indicam que, nos Estados Unidos, cerca de 40% dos líderes jurídicos consideram a tecnologia e a inovação como sua principal prioridade, uma tendência praticamente replicada na Europa.
Após um 2025 repleto de projetos-piloto e experimentação, 2026 exige maturidade:
- Automação de processos reais,
- Uso disciplinado de análises,
- A IA está integrada ao fluxo de trabalho, não como uma ferramenta independente, e
- Plataformas que conectam os aspectos jurídicos com o restante da empresa.
A tecnologia é, ao mesmo tempo, facilitadora e evidência: permite operar melhor e também demonstrar valor ao nível C com dados de despesas, desempenho, tempo e risco.
2. Talentos: retenção, desenvolvimento e requalificação
Os números comparativos do setor mostram que aproximadamente um terço dos departamentos jurídicos prioriza atualmente a retenção e o desenvolvimento de talentos internos. Não é surpreendente: a concorrência por profissionais capazes de combinar critério jurídico com visão comercial, habilidades digitais e compreensão do negócio é cada vez mais intensa.
Os departamentos jurídicos precisam de novos perfis:
- Operações legais,
- Analistas de dados,
- Especialistas em automação,
- Profissionais focados em processos.
O paradoxo é conhecido: queremos equipes pequenas, estratégicas e altamente técnicas, mas operamos sob pressão orçamentária. Por isso, o segredo não é apenas contratar melhor, mas desenvolver a equipe e criar um ambiente onde as pessoas queiram ficar.
3. Custos, eficiência e pressão para demonstrar valor
Os dados mais utilizados na análise do desempenho jurídico revelam que a otimização de custos continua entre as três principais prioridades, com níveis que oscilam entre 25% e 30%, dependendo da região.
Isso significa:
- Redesenhar processos,
- Fortalecer o relacionamento com a área financeira,
- Exigir modelos de faturamento mais eficientes de empresas externas, e
- Apresente relatórios com dados, não com base em percepções.
A questão já não é quanto gastamos, mas quanto valor geramos e como o demonstramos.
4. Capacidades de negócios: a transição de advogado para parceiro estratégico
Em 2026, o advogado que só fala de direito faz trabalho jurídico. Aquele que entende do negócio torna-se indispensável.
Isso requer:
- Leia os relatórios financeiros,
- Participar em reuniões operacionais,
- Interpretar riscos como oportunidades,
- E traduzir a complexidade jurídica em impacto concreto.
O in-house moderno precisa de “fluência multifuncional”. Se você fala a linguagem dos negócios, você se torna parte da estratégia. Caso contrário, você fica à margem.
5. Liderança, visibilidade e presença executiva
Em um ambiente híbrido e acelerado, a influência não vem com o cargo: ela é construída. Publicar insights, liderar iniciativas, participar de comitês ou associações, orientar e comunicar com clareza são práticas que fortalecem a presença executiva.
Um líder jurídico sólido transmite algo simples: “fiquem tranquilos, eu cuido disso”. E isso, em meio à incerteza, vale muito.
6. Ética, governança e prudência na era da IA
A função jurídica tornou-se a bússola ética da organização. Com IA, big data e pressão pela velocidade, os dilemas são cada vez mais complexos.
Nosso papel vai muito além da conformidade, devemos antecipar impactos culturais, reputacionais e sociais antes que eles se materializem. A conversa deve incluir riscos emergentes, uso responsável de dados e governança tecnológica.
7. Diferenças regionais e um ponto em comum
Estudos mostram que, nos EUA, as prioridades são mais concentradas (tecnologia, talento, custos), enquanto no Reino Unido a agenda é mais ampla e inclui satisfação do cliente interno, gestão de risco e conformidade.
Na América Latina, vejo uma mistura dos dois mundos:
- Forte pressão por eficiência,
- Adoção tecnológica acelerada,
- E uma ampla gama de desafios, incluindo conformidade, ESG, dados, segurança cibernética, recrutamento e gestão transfronteiriça.
Se há algo que une todos os mercados é a necessidade de informações confiáveis para tomar decisões: comparar desempenho, antecipar despesas, planejar estrutura e selecionar fornecedores
Reflexão final:
A verdadeira transformação ocorre quando deixamos de falar sobre tendências e as transformamos em decisões concretas. Em 2026, qualquer funcionário que queira crescer e qualquer departamento que queira ser verdadeiramente estratégico terá que agir com intenção:
- Escolha duas prioridades e comprometa-se com elas.
- Meça o progresso com dados.
- Integre a tecnologia sem perder a perspectiva.
- Compreenda o negócio, assim como a própria equipe de vendas.
- Liderar com ética, clareza e propósito.
Porque em um ambiente onde tudo muda rapidamente, o que realmente diferencia um departamento jurídico não é sua capacidade de reagir, mas sua capacidade de liderar.