“A questão já não é se existe uma concessão, mas sim se o projeto é sustentável ao longo do tempo”
Quando questionado sobre se os novos pilares regulatórios do Plano México 2030 impactam a segurança jurídica dos investimentos em mineração no México, Joel A. González, sócio-gerente da ALN Abogados, não responde de forma alarmista, tampouco complacente.
Para ele, o impacto existe, mas não no sentido simplista de que “mais regulamentação significa menos certeza”.
“Como temos observado ao longo de 2025, acreditamos que as crescentes expectativas das autoridades se refletiram em novas estruturas regulatórias mais rigorosas, com padrões de conformidade mais elevados”.
A diferença, explica ele, está na forma como esse aperto é interpretado: “o efeito que deveria ter – ou que, na prática, deveria ter – é igualmente um aumento da previsibilidade para as empresas que estão alinhadas e, principalmente, para aquelas que documentam seu desempenho”.
Essa é a principal mudança. A segurança jurídica deixa de ser uma presunção geral e passa a ser uma consequência seletiva. Aqueles que compreenderem o novo padrão e o incorporarem às suas operações terão maior previsibilidade do que antes. Já os que o subestimarem enfrentarão maior vulnerabilidade.

Uma visão holística versus regulação transversal
González insiste em uma ideia que repete ao longo da conversa: a mineração não pode mais ser gerida de forma compartimentada.
“Hoje, mais do que nunca, a mineração deve ser compreendida sob uma perspectiva holística”.
Uma licença ambiental não é apenas um procedimento técnico. Ela impacta cronogramas, financiamento, reputação, relações com a comunidade e a continuidade da concessão. Portanto, argumenta ele, não pode ser tratada exclusivamente por um único departamento.
Em sua visão, considerações jurídicas, operacionais, ambientais e de relacionamento com a comunidade devem estar integradas na tomada de decisões estratégicas. Essa integração não é retórica ESG; é gestão de riscos.
Nesse contexto, a segurança jurídica passa a significar coerência entre todas essas áreas.
Água: o novo epicentro do risco regulatório
Se há um campo em que a transformação é mais evidente, é o da gestão da água. Joel A. González descreve uma transição clara no modelo regulatório:
“Observamos uma evolução… de um modelo administrativo para um modelo de responsabilidade hídrica, com obrigações muito específicas de medição, pagamento de taxas e até mesmo sanções penais em caso de descumprimento”.
O caso da água utilizada em operações de mineração é particularmente sensível. O que historicamente era considerado inerente à concessão minerária agora exige mecanismos específicos de medição e cobrança de taxas, independentemente da finalidade de uso.
Diante desse cenário, o sócio-gerente da ALN aponta três frentes essenciais:
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Mapeamento detalhado e operacional da regulamentação hídrica;
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Controle rigoroso da documentação, com responsáveis claramente designados;
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Estratégias preventivas para mitigar riscos de expiração, suspensão ou cancelamento.
Para Joel A. González, a gestão da água será um dos principais indicadores de conformidade nos próximos anos.
Resiliência social: além da licença para operar
No campo dos ESG e das relações com as comunidades, Joel A. González apresenta um conceito que considera central para compreender o momento do setor: a resiliência social.
“Resiliência social… é a capacidade de um projeto permanecer viável diante de modelos regulatórios, sociais e geopolíticos adversos ou em transformação”.
Segundo ele, a mineração não pode mais se limitar a obter uma licença social inicial. Precisa ser capaz de manter sua legitimidade em ambientes em constante mudança, com comunidades exigindo prosperidade compartilhada e autoridades elevando seus padrões.
A partir de sua atuação na ALN, González entende o direito minerário como uma prática dinâmica, que acompanha todo o ciclo do projeto, da exploração ao encerramento, com diálogo constante entre áreas técnicas e estratégicas.
O papel do advogado: de intérprete normativo a arquiteto da continuidade
Para Joel A. González, o direito da mineração atravessa uma fase de evolução acelerada. Os advogados não podem mais se limitar a analisar reformas regulatórias; precisam compreender o modelo de negócios desde sua concepção – inclusive em empresas de capital aberto – passando pelas etapas de exploração, desenvolvimento, operação e encerramento.
Na ALN, explica ele, assumiram o papel de elo entre a empresa, suas áreas internas, as autoridades nos três níveis de governo e as comunidades.
Não se trata de discurso de marketing, mas de uma redefinição profissional. Em um ambiente mais exigente, a assessoria jurídica transforma-se em sistema de prevenção e coordenação.
Protocolos, ferramentas e cultura
González reconhece o valor das ferramentas tecnológicas para análise e prevenção de riscos, bem como a adoção de protocolos como o TSM (Towards Sustainable Mining) por empresas vinculadas à CAMIMEX e à CANCHAM.
Mas ele retorna ao ponto essencial: nenhuma ferramenta substitui a integração interna.
“Além dessas ferramentas… a melhor estratégia para prevenir conflitos de qualquer natureza é a integração das diferentes áreas da empresa operacional, com estratégias muito bem definidas”.
Em sua visão, o risco não é gerido apenas por meio da conformidade formal, mas por meio da cultura organizacional.
Joel A. González não apresenta o Plano México 2030 como ameaça nem como garantia. Ele o interpreta como um filtro.
A segurança jurídica na mineração mexicana não está desaparecendo, está se tornando mais exigente. Depende menos da estabilidade passiva do marco regulatório e mais da capacidade ativa de cada projeto de cumprir normas, documentar processos, antecipar riscos e manter diálogo constante.
Nesse cenário, a concessão é condição necessária, mas não suficiente. A continuidade operacional, sustentada pelo pleno cumprimento das normas e pela resiliência social, torna-se o verdadeiro indicador de segurança.