No setor da construção civil, onde cada decisão impacta diretamente prazos, custos e viabilidade, o departamento jurídico não pode atuar de forma isolada. Grace Castro, consultora jurídica sênior e PMP® em uma empresa líder do setor, propõe uma mudança clara na atuação jurídica: os advogados precisam se integrar à lógica de execução do projeto se quiserem agregar valor real. Com base em sua experiência, ela explica por que a prevenção não é uma função jurídica isolada, mas sim o resultado da compreensão de como os projetos são construídos e gerenciados.
“Um advogado que trabalha em projetos deve saber como eles são gerenciados.”
A afirmação de Grace Castro não é conceitual, mas sim operacional. Em projetos de construção, onde múltiplas variáveis interagem simultaneamente, a legislação não pode ser analisada isoladamente. Pelo contrário, precisa ser integrada à lógica do projeto, compreendendo seus prazos, restrições e dinâmicas. Nesse sentido, é essencial “conhecer as diferentes áreas do conhecimento… entender a linguagem que os engenheiros usam”, desde escopo e cronograma até custos, riscos e comunicação.
Esse conhecimento não é secundário. É o que permite a intervenção antes que o risco se materialize. A própria evolução da regulamentação no Peru já começa a refletir essa necessidade, incorporando cada vez mais a gestão de projetos como elemento central. “Será apresentada uma abordagem técnica e jurídica integrada”, observa ela, o que permitirá maior controle e previsibilidade dos resultados.

Da revisão de contratos à estruturação de processos
A partir desse ponto, o papel do departamento jurídico se transforma. Não se trata mais apenas de revisar contratos, mas de entender como esses contratos são executados e gerenciados no dia a dia.
Do ponto de vista da gestão de projetos, isso envolve a otimização de processos, a estruturação de informações e o estabelecimento de fluxos claros de tomada de decisão. Como explica Castro, a implementação das melhores práticas permite a organização de “informações, registros e fluxos de trabalho relacionados a tópicos de interesse”, o que transforma completamente a maneira como as intervenções são realizadas.
Em vez de reagir ao conflito, a área jurídica se posiciona dentro do sistema que o previne.
“Isso nos permite antecipar controvérsias e gerenciar essas situações adequadamente”, resume ela.
A diferença não está em resolver melhor os problemas, mas em ter estruturado melhor o problema desde o início.
Quando o desalinhamento se torna uma questão legal
No entanto, quando essa integração não existe, surgem problemas na fase mais crítica: a execução.
Nesses casos, o conflito não surge isoladamente, mas como consequência da ausência de uma estrutura prévia. Como Castro destaca, “as reivindicações tornam-se mais complexas de fundamentar”, não pela dificuldade jurídica do caso em si, mas pela ausência de informações, registros ou cumprimento dos processos contratuais.
Isso fica especialmente evidente em situações como extensões ou solicitações adicionais, em que um argumento válido não é suficiente. É necessário ter seguido os procedimentos e possuir documentação comprobatória.
Caso contrário, o departamento jurídico passa a atuar de forma reativa, tentando reconstruir o que não foi resolvido a tempo. Nesse ponto, a margem de manobra já é limitada.
O contrato como um sistema, não como um documento
Esse cenário revela uma mudança mais profunda: o contrato deixa de ser um documento estático e passa a fazer parte de um sistema de gestão.
As fases do projeto — iniciação, planejamento, execução, monitoramento e encerramento — não são separadas da lei, mas fazem parte do ambiente em que o projeto é implementado. Como Castro destaca, a integração desses processos “nos permitirá antecipar disputas”, justamente porque conecta a implementação ao arcabouço legal.
Quando essa integração existe, o contrato funciona como uma ferramenta viva: permite a documentação, o gerenciamento de desvios e o apoio à tomada de decisões. Quando não existe, ele perde eficácia, não por causa de sua redação, mas por estar desconectado das operações.
A conversa que chega ao Fórum
Essa é a abordagem que Grace Castro adotará no Foro Gerencias Legales y Arbitraje en Miami, onde o foco será em como integrar a área jurídica à execução prática dos projetos.
A abordagem apresentada é clara: a prevenção eficaz requer um sistema. Isso envolve a incorporação de mecanismos como cláusulas de alerta precoce e gestão de riscos, mas também o fortalecimento da coordenação com as áreas técnicas por meio de grupos de trabalho conjuntos.
Esse modelo é complementado pela implementação de ferramentas como comitês de resolução de disputas, que introduzem uma lógica preventiva na gestão de conflitos, bem como pela padronização de processos que garantem o acesso a informações relevantes.
No entanto, o ponto central é outro: a formação e a integração das equipes. “Formar engenheiros e capacitá-los em gestão de projetos”, destaca, como condição para que os aspectos jurídicos e técnicos funcionem em pé de igualdade.
Em projetos de construção, o conflito não surge de repente. Ele é intrínseco ao processo. Está presente em cada decisão não documentada, em cada processo que não é seguido e em cada risco que não é identificado a tempo.
Portanto, o valor da área jurídica reside não na sua capacidade de reagir, mas na sua capacidade de antecipar.
Antes da brecha, da reclamação e do conflito.
Como Grace Castro sugere ao longo da conversa, quando um advogado não entende como um projeto é executado, ele não está mais gerenciando o risco, mas sim chegando atrasado.