ENTREVISTA

João Miranda de Sousa, do Garrigues: “Hoje já não basta dominar áreas jurídicas específicas”

ENTREVISTA

Mafalda Barreto, do Gómez-Acebo & Pombo: “Clientes já não procuram apenas advogados, mas parceiros estratégicos”

Giorgio Schiappa-Pietra, de Binswanger Peru: “Uma equipe jurídica não pode ser apenas um freio: precisa saber lidar com o risco”

Giorgio Schiappa-Pietra propõe uma abordagem clara para o campo jurídico do setor imobiliário: não obstruir o negócio, mas viabilizá-lo. Sua experiência demonstra que o maior risco reside não na estrutura em si, mas na forma como ela é interpretada e gerenciada durante a execução

Por Heidi Maldonado

No setor imobiliário, onde cada decisão combina pressão comercial, complexidade operacional e exposição financeira, o papel do departamento jurídico torna-se especialmente delicado. Giorgio Schiappa-Pietra, gerente jurídico de Binswanger Peru, aborda essa questão com clareza: o advogado interno não está ali para obstruir, mas para viabilizar que as transações avancem com bom senso. Na conversa, ele explica por que o maior erro não está na estruturação, mas na avaliação de riscos, e como uma equipe jurídica pode deixar de apenas proteger o negócio e passar a torná-lo verdadeiramente viável.

“Os advogados tendem sempre a complicar situações que muitas vezes deveriam ser tratadas de forma pragmática.”

Giorgio Schiappa-Pietra começa com uma autocrítica pouco comum no setor. Para ele, o problema não é o risco em si, mas como ele é gerido juridicamente. E isso começa com a compreensão do verdadeiro papel do departamento jurídico dentro da empresa.

“Como sempre digo, a área jurídica serve para ‘dar suporte’, não para ‘expandir o negócio’, porque não gera negócios, mas sim os protege.”Essa definição pode parecer conservadora, mas é justamente o que lhe permite introduzir um ponto essencial: proteger não significa impedir.

A chave para o sucesso está em outro lugar: na capacidade de antecipar quando intervir e quando deixar as operações fluírem. “Um gestor jurídico e sua equipe devem ter a perspicácia de não se tornarem um obstáculo à geração de negócios, mas sim um filtro que, por vezes, identifica riscos e, em outras, valida informações e permite que as operações fluam.”

Os verdadeiros atritos do setor: o que falha antes da execução

Em um mercado como o imobiliário peruano, marcado por ciclos de expansão e ajuste, as tensões nem sempre resultam de grandes decisões estratégicas. Muitas vezes, elas têm origem na estrutura das empresas.

Para Schiappa-Pietra, um dos principais problemas está na estruturação contratual, especialmente em empresas de pequeno e médio porte.

“Contratos mal estruturados criam atrito desde o início.” Em resposta, ele propõe uma ideia simples, mas pouco difundida: a necessidade de padronizar os documentos, adaptando-os a cada transação, mas evitando começar do zero em cada negociação.

A isso se soma outro fator crítico: a assimetria entre as partes. Em transações complexas, uma das partes geralmente detém maior poder de negociação, especialmente quando uma delas impõe cláusulas praticamente obrigatórias. É nesse ponto, como ele destaca, que o departamento jurídico deve empregar não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades estratégicas para equilibrar a negociação.

No âmbito regulatório, o diagnóstico é complexo. O quadro legal, em termos gerais, favorece o setor, mas existem pontos de atrito evidentes: zoneamento, parâmetros municipais e restrições relacionadas ao patrimônio cultural.

“As expectativas do projeto muitas vezes entram em conflito com as regulamentações”, explica ele. E essa tensão, longe de ser pontual, faz parte do cotidiano do setor.

O verdadeiro problema: não medir o risco adequadamente

Além da estruturação ou da pressão empresarial, Schiappa-Pietra identifica um ponto em que se concentram os erros mais custosos: a avaliação de riscos.“Erros na avaliação de riscos são muito mais comuns.”

O problema não é teórico. Ele se manifesta durante a execução. Em projetos complexos, em que múltiplos agentes estão envolvidos — empreiteiros, subempreiteiros, fornecedores —, as contingências nem sempre são previstas. Não por má-fé, mas pela própria dinâmica do processo de construção.

“A falta de mensuração muitas vezes se traduz em atrasos e até paralisações.”

As consequências são diretas: penalidades, execução de garantias e, no pior cenário, um impacto econômico e reputacional que pode ser difícil de reverter.Além disso, há um elemento crítico que muitas vezes é subestimado: as cláusulas de resolução de disputas. Uma redação inadequada nesta fase pode levar a conflitos quanto ao foro, seja ele judicial ou arbitral, gerando estouros orçamentários e atrasos que afetam o resultado final do projeto.

Diante desse cenário, ele propõe uma solução que vai além do âmbito jurídico: uma “triangulação colaborativa” entre cliente, supervisor e contratado. Não como um ideal teórico, mas como uma condição prática para a execução bem-sucedida.

Do freio ao navegador: a mudança de mentalidade

Para explicar a diferença entre um departamento jurídico que apenas protege e outro que viabiliza, Schiappa-Pietra usa uma imagem precisa: “O departamento jurídico é como um carro.” O modelo tradicional age como um freio: busca eliminar o risco, evita qualquer contingência e, nesse processo, pode acabar bloqueando os negócios.

O modelo que ele propõe é diferente. “Uma equipe jurídica que sabe viabilizar a operação é como um GPS.”

A chave é aceitar que os negócios envolvem riscos, mas aprender a gerenciá-los com sabedoria. E aqui ele apresenta seu conceito central: o “semáforo do risco”.

Vermelho: operações que não devem ser executadas.

Laranja: riscos que devem ser avaliados em função do retorno.

Verde: cenários em que o risco é mínimo e o papel jurídico é de apoio.

Essa abordagem não elimina a incerteza, mas permite uma tomada de decisão mais clara e consistente.

“A gestão jurídica eficiente será aquela que acompanha o processo, identificando com clareza os sinais de alerta.”

Antecipe, não reaja

Antes do debate no Foro Gerencias Legales y Arbitraje en Miami, Schiappa-Pietra amplia o foco. O “semáforo do risco” é necessário, mas insuficiente. O verdadeiro desafio reside em construir equipes capazes de antecipar e não apenas reagir. E isso envolve mais do que conhecimento técnico.

“As equipes são construídas com base na confiança.”

Para ele, a diferença está na combinação de habilidades técnicas e interpessoais, na empatia com o cliente interno e na capacidade de liderança para transmitir critérios a toda a organização.

A isso se soma uma camada adicional: a tecnologia.

“O gestor jurídico não deve ver a IA como concorrência, mas sim como uma ferramenta.”

Nesse contexto, a IA, em conjunto com ferramentas de realidade virtual, permite a projeção de cenários e facilita a compreensão dos projetos por todas as partes interessadas. Não se trata apenas de eficiência, mas também de antecipação.

Na visão de Giorgio Schiappa-Pietra, há uma ideia fundamental que permeia todo o seu raciocínio: o problema não é o risco em si, mas a incapacidade de reconhecê-lo a tempo. Em um setor como o imobiliário, onde cada decisão envolve múltiplas variáveis — técnicas, contratuais, regulatórias e humanas —, tentar eliminar a incerteza não é apenas irrealista, mas também contraproducente. Os negócios, por definição, envolvem exposição.

A diferença está na forma como o risco é gerido. Trata-se de uma forma diferente de compreender o papel do jurídico dentro da organização — não como um controle externo, mas como uma ferramenta interna de apoio à tomada de decisão.

Em última análise, não se trata de impedir que as transações aconteçam, mas de evitar que aconteçam de forma incorreta. E, nesse ponto, o papel do gestor jurídico deixa de ser reativo e passa a ser estrutural

Artigos relacionados

Editar Imagenes de Higthligths

You are not permitted to submit this form!







    Editar Imagenes de Higthligths

    You are not permitted to submit this form!

    Editar reconocimientos - Latin Lawyer

    Contenido Reconocimiento Latin Lawyer*

    Editar reconocimientos - Leaders League

    Contenido Reconocimiento Leaders League*

    Editar link equipo

    Editar Oficinas

    Editar de highlight

    Editar reconocimientos - Legal 500

    Contenido Reconocimiento Chambers*

    Editar Reconocimientos - Chamber

    Contenido Reconocimiento Chambers*

    Editar Banner

    Selecciona un Banner*

    Editar reconocimientos

    Editar reconocimientos

    Contenido Reconocimiento Interno*

    Editar resumen

    Editar sectores de actividad

    Sectores de Actividad*

    Editar áreas de practica

    Areas de practica*

    Editar tag

    Tags*

    Edita otros datos de interés

    You are not permitted to submit this form!

    Editar logo

    You are not permitted to submit this form!

    Editar datos de firma