A liderança jurídica no setor agroalimentício não se exerce à distância. Constrói-se a partir da compreensão das operações, da logística, do clima e das pressões regulatórias internacionais. Alejandro Branca aprendeu isso desde cedo: na agricultura, uma cláusula mal redigida pode custar uma safra inteira, e uma interpretação equivocada das normas pode fechar mercados.
Como diretor de Assuntos Jurídicos e Corporativos da Hortifrut, uma das principais exportadoras agrícolas do mercado internacional, seu papel vai muito além do simples cumprimento das normas. Sua atuação combina estratégia, fortalecimento institucional do setor agrícola e defesa inteligente da competitividade em um ambiente global cada vez mais exigente.

Sujar as botas não é metáfora
Alejandro Branca não fala do campo a partir de uma perspectiva teórica. Ele fala a partir da experiência.
“Hoje, sou, antes de tudo, um mexicano que tem o maior respeito por todos aqueles que trabalham na agricultura e tornam possível que os alimentos do nosso país cruzem fronteiras. Mais do que o meu cargo, sou um advogado que decidiu sujar as botas no campo.”
Ele explica que seu julgamento não foi formado apenas em reuniões de diretoria ou encontros estratégicos, mas na compreensão concreta de como uma geada, um atraso na fronteira ou uma cláusula mal estruturada podem redefinir toda uma temporada.
“No agronegócio, aprendi que a legislação impacta colheitas, empregos e mercados internacionais.”
As decisões que marcaram sua liderança foram claras: sair da zona de conforto, assumir responsabilidades regionais e entender que o advogado que não compreende a operação acaba opinando à distância.
“E, neste setor, a distância custa milhões”, afirma.
Quando a conformidade não é suficiente
A Hortifrut opera em mercados internacionais, com cadeias de suprimentos complexas e regulamentações em constante transformação. Foi nesse contexto que Branca percebeu que a função jurídica precisava evoluir.
“Entendi que a conformidade, por si só, não protege a rentabilidade; a conformidade alinhada à estratégia, sim.”
Em uma empresa exportadora, uma cláusula controversa, uma interpretação equivocada das normas ou uma falha na rastreabilidade podem comprometer um mercado inteiro. O advogado especializado em agronegócio, argumenta ele, não pode se limitar a validar decisões.
“Ele deve estruturar, antecipar e, às vezes, interromper estrategicamente”, afirma.
O verdadeiro valor da área jurídica não está em reagir ao risco, mas em antecipá-lo. “A proteção é reativa; a antecipação é estratégica.”
Em um setor de margens apertadas e alta exposição, mapear riscos antes que se materializem — de mudanças regulatórias a restrições comerciais ou exigências ESG — significa proteger diretamente a rentabilidade.
Coerência sem rigidez
Gerir a área jurídica de uma empresa com presença internacional implica equilibrar normas globais com realidades locais sem comprometer o ritmo das operações.
“Coerência não significa rigidez; significa consistência nos princípios e flexibilidade na execução.”
O desafio não é padronizar tudo, mas harmonizar critérios sem paralisar a operação. Há princípios inegociáveis — direitos humanos, conformidade e propriedade intelectual —, mas sua implementação deve ser adaptada a cada contexto.
Na agricultura, a velocidade não é um conceito abstrato. “Ela não se conquista dizendo sempre ‘sim’, mas estruturando processos padronizados, acordos-quadro, critérios predefinidos e capacitando a equipe.”
Quando o departamento jurídico compreende o ciclo produtivo, operacional e comercial, consegue antecipar demandas e responder em questão de horas. Em um setor que opera com base em prazos, um atraso ou uma priorização inadequada podem comprometer todo o ciclo.
ESG: permanência, não discurso
Para Branca, a sustentabilidade deixou de ser apenas um elemento reputacional.
“O impacto é total. A agenda ESG deixou de ser mera comunicação corporativa e tornou-se uma verdadeira estrutura jurídica.”
Cláusulas de due diligence, auditorias trabalhistas, rastreabilidade e responsabilidade estendida do produtor na cadeia de suprimentos passaram a integrar a estratégia central do negócio. Para um exportador agrícola, sustentabilidade significa acesso e presença contínua em mercados internacionais. “Conformidade não é apenas uma obrigação; é uma questão de permanência.”
Mas isso introduz uma nuance incomum na conversa corporativa: a consistência pessoal.
“Se um profissional não acredita genuinamente nos princípios que fundamentam a agenda ESG, seu trabalho diário será afetado por esse conflito interno entre aplicar os critérios ou contorná-los.”
Para ele, convicção não é um acessório ético, mas uma condição estratégica.
Transformar complexidade em vantagem competitiva
Quando lhe pedem para definir liderança jurídica em uma única ideia, ele responde de forma direta: “Liderança jurídica é transformar a complexidade em vantagem competitiva.”
O ambiente de exportação agrícola é marcado por condições climáticas imprevisíveis, pressão regulatória transfronteiriça, escrutínio trabalhista no âmbito de acordos comerciais, padrões ESG cada vez mais sofisticados, propriedade intelectual vegetal altamente sensível e cadeias de suprimentos fragmentadas.
A liderança jurídica não consiste apenas em gerenciar essa complexidade, mas em estruturá-la: traduzir risco em governança, incerteza em contratos sólidos e exigências regulatórias em acesso sustentado a mercados estratégicos.
Ainda assim, ele identifica conversas que o setor prefere evitar.
Primeiro, a institucionalização do setor agrícola. A agricultura latino-americana é extraordinariamente produtiva, mas ainda opera, em muitos casos, com estruturas contratuais frágeis e baixa cultura de gestão proativa de riscos. Competir globalmente exige a profissionalização jurídica de toda a cadeia, do viveiro ao varejo.
Em segundo lugar, a verdadeira corresponsabilidade na cadeia agrícola. As regulamentações internacionais já não distinguem quem produz de quem comercializa: o risco reputacional e jurídico é compartilhado.
Em terceiro lugar, a defesa estratégica da propriedade intelectual sobre variedades vegetais. Em um setor no qual a genética é sinônimo de inovação, a proteção eficaz é essencial para a sustentabilidade do modelo de negócio.
Por fim, a tensão entre competitividade e excesso de regulação. A discussão não gira em torno de menos regras, mas de uma regulação inteligente, capaz de preservar padrões sem comprometer a viabilidade econômica.
O advogado como arquiteto estratégico
Em espaços como o Fórum de Gestão Jurídica Monterrey 2026, organizado pela Gericó Associates, Branca busca provocar um debate direto:
“Os departamentos jurídicos estão liderando a transformação ou apenas gerenciando contingências?”
Para ele, o advogado da agricultura — e de qualquer setor inserido em cadeias globais — não pode ser apenas um validador de decisões já tomadas. Deve tornar-se um arquiteto estratégico.
A liderança jurídica de que o setor precisa hoje, insiste ele, não é reativa nem conservadora. É estruturante, educativa e estratégica. Compreende que, embora proteger seja fundamental, construir instituições é transformador.
Alejandro Branca entende que, no agronegócio, toda decisão jurídica tem impacto econômico real, imediato e, por vezes, irreversível. Sua experiência demonstra que o discernimento não se constrói apenas na sala de reuniões, mas na prática: no frio de uma geada, na urgência de uma fronteira, na redação de uma cláusula que pode sustentar — ou comprometer — toda uma safra.
Em um setor que sustenta economias regionais inteiras e compete em mercados globais exigentes, a lei não é mera formalidade. É instrumento de competitividade.
E, como ele próprio resume, tudo começa com algo tão simples quanto decisivo: sujar as botas.