María Cermeño, Diretora de Serviços Jurídicos de Telefónica España, remonta a origem de sua compreensão da função jurídica ao ano 2000. Ela ingressou em Telefónica B2B como especialista tributária e, após o estouro da bolha da internet, assumiu responsabilidades de desenvolvimento de negócios e marketing. Ao retornar à área jurídica, percebeu que o valor de um advogado reside na aplicação do arcabouço legal, considerando o contexto, os objetivos e as consequências práticas de cada decisão. Esse princípio norteia seu estilo de liderança atualmente: ela busca a opinião de sua equipe antes de tomar uma decisão e, em seguida, assume a responsabilidade por ela. Ela resume isso em uma frase: “Para mim, liderar não significa ter a primeira palavra, mas sim assumir a responsabilidade pela última palavra quando chegar a hora”.

Sua carreira a levou a chefiar os serviços jurídicos de Telefónica España. Que momento da sua carreira você considera um ponto de virada?
O ponto de virada que lançou as bases para a minha compreensão atual da função jurídica ocorreu há algum tempo, quando entrei para Telefónica B2B como especialista tributária em 2000. Poucos meses depois, a bolha da internet estourou e a empresa, como muitas empresas de tecnologia na época, teve que redefinir sua estrutura e necessidades. Nesse contexto, fiz a transição da consultoria tributária para assumir responsabilidades de desenvolvimento de negócios e marketing.
Essa experiência me permitiu entender a empresa sob uma perspectiva diferente: compreender melhor como as decisões são tomadas, as tensões enfrentadas pelos diferentes departamentos e a complexidade por trás dos objetivos de negócios. Quando retornei à área jurídica, fiz isso com uma perspectiva mais ampla. Compreendi que o rigor técnico é essencial, mas que nosso verdadeiro valor reside não apenas em identificar corretamente o arcabouço legal, mas também em saber como aplicá-lo, considerando o contexto, os objetivos e as consequências reais de cada decisão.
Essa perspectiva tem sido particularmente útil para mim em minha função atual, na qual uma das minhas principais responsabilidades é ajudar a empresa a tomar decisões acertadas em um ambiente complexo, em constante mudança e incerto, onde uma decisão inadequada pode ter consequências econômicas, estratégicas ou de reputação significativas.
Acredito que tive a sorte de observar, talvez um pouco antes de outros profissionais, algo que muitos advogados internos agora compartilham: a função jurídica está cada vez mais relacionada ao discernimento, e não apenas ao conhecimento. Nosso valor reside não apenas em resolver problemas ou definir o que uma regra permite, mas também em ajudar nossas empresas a pensar melhor, antecipar melhor e tomar decisões mais acertadas. Os advogados precisam se sentir confortáveis lidando com a incerteza, porque, no mundo dos negócios, raramente existem respostas totalmente definitivas.
Um bom líder sabe quando decidir e quando ouvir sua equipe. Como você integra as opiniões da sua equipe nas decisões que toma?
Ouvir a equipe não é uma concessão ou mera cortesia. É uma forma de aprimorar as decisões e construir uma cultura de padrões intelectuais mais elevados.
Uma equipe jurídica é composta por profissionais com diversas especializações, experiências, conhecimentos e perspectivas. Deixar de aproveitar essa diversidade de pontos de vista seria abrir mão de uma parte significativa da nossa inteligência coletiva. Quanto mais perspectivas incorporarmos em nossas análises, mais abrangentes e sustentáveis serão as soluções que poderemos oferecer. É por isso que tenho particular interesse em fomentar uma cultura de confiança e segurança profissional. Para isso, é essencial criar um ambiente em que ninguém sinta que questionar uma proposta seja o mesmo que questionar a pessoa que a apresenta. Muitas vezes, o argumento ou a nuance que falta surge justamente da discordância. Pessoalmente, aprendi muito com aqueles que foram generosos o suficiente para me dizer que discordavam de mim em determinados momentos.
No entanto, ouvir não deve levar à paralisia ou à diluição da responsabilidade. Chega um ponto em que o debate deixa de agregar valor, e o líder precisa organizar as diferentes perspectivas, tomar uma decisão, explicar o raciocínio por trás dela e aceitar claramente as consequências dessa decisão. Para mim, liderar não significa ter a primeira palavra, mas sim assumir a responsabilidade pela última palavra quando chegar a hora. Também percebi que as pessoas se comprometem muito mais com uma estratégia quando sentem que foram ouvidas e entendem o propósito do que estão fazendo. Ouvir aprimora as decisões, mas também fortalece o comprometimento e ajuda as equipes a crescerem.

Todo líder tem princípios que guiam seu estilo de liderança. Quais valores são inegociáveis para você como líder?
O primeiro é a integridade. A confiança se constrói sobre a retidão profissional, a independência de julgamento e a capacidade de dizer o que acreditamos que precisa ser dito, mesmo que não seja o mais confortável ou o que o interlocutor espera ouvir. Na advocacia, a credibilidade leva muito tempo para ser construída e pode ser perdida com uma única decisão.
O segundo aspecto é o rigor. Nosso trabalho exige esforço, preparação e honestidade intelectual. Valorizo especialmente os profissionais que argumentam com raciocínio sólido e bom senso, que sabem reconhecer dúvidas e que não forçam conclusões para chegar à resposta mais conveniente. Ser rigoroso não significa ser inflexível, mas sim compreender bem a realidade antes de emitir um juízo sobre ela.
A isso, eu acrescentaria respeito e generosidade. Altos padrões fazem parte da liderança, mas nunca devem ser usados como desculpa para perder a humanidade ou o respeito. Acredito firmemente que a excelência sustentável é sempre coletiva. Por isso, é importante compartilhar informações, dedicar tempo ao desenvolvimento dos outros e entender que o talento não diminui quando compartilhado: ele se multiplica.
Por fim, em um momento de transformação tão profunda, eu acrescentaria curiosidade e resiliência. Um líder não pode pedir à sua equipe que aprenda, mude ou se adapte se ele próprio deixou de fazê-lo. Liderar também envolve manter a humildade necessária para continuar aprendendo e aceitar que algumas das habilidades que nos trouxeram até aqui não são suficientes para enfrentar o futuro.
As telecomunicações são uma infraestrutura crítica sujeita a intensa regulação em termos de conectividade, cibersegurança e concorrência. Como liderar uma função jurídica em um setor tão regulado?
O primeiro ponto a compreender é que a regulação não é uma restrição externa aos negócios, mas sim uma parte essencial do ambiente em que operam. No setor de telecomunicações, a complexidade regulatória é uma realidade inerente, embora isso não nos impeça de defender, pelos canais estabelecidos, melhorias nas áreas em que a regulação possa ser desproporcional, irracional ou insuficientemente adaptada à realidade tecnológica e competitiva.
A regulação deve proteger interesses essenciais, mas também deve permitir inovação, investimento e concorrência. Encontrar esse equilíbrio é especialmente importante em um setor que forma a infraestrutura sobre a qual grande parte da economia digital está sendo construída.
Este contexto nos obriga a ir muito além da simples interpretação das regras. Devemos antecipar sua evolução, traduzir suas implicações para o negócio e ajudar a empresa a tomar decisões seguras sobre assuntos cruciais como conectividade, cibersegurança, concorrência, proteção do usuário e inteligência artificial, especialmente quando nosso objetivo é ser a melhor porta de entrada para as tecnologias digitais para todos.
Tudo isso exige a combinação de conhecimento técnico, visão estratégica e serenidade. Em setores altamente regulados, a liderança jurídica consiste em proteger sem paralisar e em viabilizar sem banalizar o risco. Para alcançar esse objetivo, é essencial manter comunicação constante com a empresa, ter um profundo conhecimento de sua estratégia e reconhecer que a melhor resposta jurídica nem sempre é a mais defensiva, mas sim aquela que permite um progresso responsável e sustentável.
O departamento jurídico de uma grande empresa reúne profissionais de especialidades muito diversas. Como manter a coesão de uma equipe desse tamanho?
Não acredito que construir a coesão de uma equipe signifique homogeneizá-la ou apagar suas diferenças. Isso seria um erro, pois perderíamos a riqueza que advém da presença de especialistas, experiências e diferentes abordagens para os problemas. A diversidade é uma alavanca essencial para tomar melhores decisões.
Na minha opinião, a coesão surge do compartilhamento de referências comuns: elevados padrões de qualidade; rigor e exigência; uma clara vocação para o serviço; compromisso com os objetivos da empresa; e uma cultura de respeito, confiança e generosidade profissional.
Para construir essa estrutura compartilhada, uma liderança clara é essencial. As pessoas precisam entender a estratégia, saber o que se espera delas e compreender como seu trabalho contribui para o propósito geral da organização. É crucial também que a informação flua livremente, que os departamentos não operem isoladamente e que cada profissional sinta que sua opinião importa e que faz parte de algo maior.
Mas a coesão também tem uma dimensão profundamente humana. Envolve conhecer as pessoas, criar oportunidades para que cresçam e fomentar um ambiente onde possam atingir seu pleno potencial. Nem todos precisam das mesmas coisas, nem progridem no mesmo ritmo. Liderar uma equipe diversa exige combinar uma estrutura comum com atenção genuína a cada profissional. Além disso, o aprendizado contínuo é essencial neste momento. A inteligência artificial e as novas tecnologias estão transformando a maneira como trabalhamos. O desafio reside não apenas em incorporá-las, mas em usá-las para ampliar nosso discernimento e agregar valor, e não para substituí-lo. Preocupo-me com a possibilidade de surgirem disparidades dentro de uma equipe entre aqueles que evoluem e aqueles que ficam para trás; portanto, aprender e ajudar os outros a aprender deve fazer parte de nossa responsabilidade coletiva.

Você é membro do júri do Gala Nacional del Derecho – Legal Leadership Awards 2026, que reconhece a excelência em marketing, comunicação e desenvolvimento de negócios no setor jurídico. O que a existência de prêmios dedicados a essas áreas revela sobre o estado atual do setor jurídico?
Acredito que isso demonstra que o setor jurídico está deixando para trás uma visão excessivamente fechada de si mesmo e começando a entender que o valor jurídico não deve apenas ser gerado: ele também deve ser transmitido, ser explicado e se conectar com as necessidades reais daqueles que o recebem.
Durante muito tempo, em certos círculos jurídicos, parecia que discutir comunicação, posicionamento ou desenvolvimento de negócios diminuía a seriedade do trabalho técnico. Hoje sabemos que não é o caso. A excelência jurídica continua sendo o núcleo essencial, mas essa excelência precisa ser expressa, diferenciada e compreendida em um ambiente cada vez mais competitivo e sofisticado. Comunicar-se eficazmente não significa simplificar indevidamente o direito ou transformá-lo em um produto superficial. Significa ser capaz de traduzir conhecimento complexo em discernimento útil e explicar claramente o valor que agregamos. Um parecer extraordinário que não é compreendido, chega tarde ou não se conecta às necessidades do destinatário perde uma parte significativa de sua eficácia. É por isso que considero o reconhecimento dessas disciplinas tão positivo. Reflete uma profissão mais aberta, mais atenta às suas partes interessadas e também mais orientada para o serviço. Comunicação e desenvolvimento de negócios não substituem a excelência técnica, mas podem ampliá-la e torná-la mais relevante.
A entrevista com María Cermeño oferece um alerta concreto para as equipes jurídicas internas. Cermeño acredita que a inteligência artificial deve servir para ampliar o discernimento e o valor dos advogados. Ela também se preocupa com a possibilidade de surgirem disparidades dentro das equipes entre aqueles que evoluem e aqueles que ficam para trás. Portanto, ela considera o aprendizado contínuo, tanto pessoal quanto coletivo, uma responsabilidade coletiva. A mesma ideia de utilidade guia sua interpretação do Legal Leadership Awards 2026: a excelência jurídica continua sendo o foco, mas precisa ser comunicada com clareza. Para Cermeño, a comunicação eficaz consiste em traduzir conhecimento complexo em discernimento útil, pois um parecer que não é compreendido ou que chega tarde perde grande parte de sua eficácia.