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Valeria Plastino: “Estamos entrando em uma fase em que a confiança será o principal fator impulsionador do crescimento digital”

Por Heidi Maldonado

Valeria Plastino é Vice-Presidente Executiva, Conselheira Jurídica e Diretora de Compliance da Cirion Technologies, uma empresa de infraestrutura digital com presença em mais de 20 países da América Latina. Natural da Argentina, com uma carreira construída entre escritórios internacionais de primeira linha e funções internas no setor de tecnologia, ela combina liderança jurídica, compliance e a voz jurídica no conselho executivo em uma única posição. Nesta conversa com a Líder Legal, ela discute a fragmentação regulatória na região, o papel da função jurídica na transformação digital e o que a comunidade de conselheiros jurídicos da América Latina ainda não está abordando com a urgência necessária.

Sua carreira se desenvolveu na interseção entre o direito corporativo e a indústria de tecnologia na América Latina. O que te atraiu para o setor de tecnologia do ponto de vista jurídico, e quais experiências mais te moldaram antes de ingressar na Cirion?

Minha carreira se desenvolveu desde muito cedo na interseção entre o direito empresarial e setores altamente dinâmicos, e o setor de tecnologia sempre me atraiu particularmente por seu potencial transformador. Diferentemente de outros setores, na tecnologia o arcabouço jurídico não apenas apoia os negócios: ele os viabiliza. Essa ideia de construir estruturas jurídicas que permitam que a inovação cresça em escala de forma segura foi o que me motivou.

Antes de ingressar na Cirion, tive experiências extremamente enriquecedoras tanto em escritórios de advocacia internacionais quanto em departamentos jurídicos de empresas de tecnologia. Trabalhar em escritórios de advocacia renomados como o Paul Weiss e, posteriormente, na Starmedia Networks, uma das primeiras plataformas digitais regionais, me expôs a ambientes onde a inovação superava a regulamentação. Isso me ensinou a enxergar o direito não de forma reativa, mas como uma ferramenta estratégica.

Minha experiência na América Latina também foi fundamental, trabalhando em projetos em diversos países da região e assessorando investimentos multinacionais. Lá, adquiri um profundo conhecimento das complexidades de operar em ambientes regulatórios diversos e, muitas vezes, instáveis. Essa combinação de tecnologia, internacionalização e complexidade regulatória acabou moldando meu perfil. Nesse sentido, a Cirion foi a culminação natural de toda essa jornada: uma empresa regional de infraestrutura digital, atuando em 20 países da América Latina, que exige justamente essa visão integrada de direito, tecnologia e operações transfronteiriças.

“Na área da tecnologia, o arcabouço legal não apenas apoia os negócios: ele os viabiliza. Essa ideia de construir estruturas legais que permitam que a inovação cresça em escala com segurança foi o que me motivou.”

Pouquíssimos advogados corporativos na América Latina ocupam simultaneamente os cargos de vice-presidente executivo, consultor jurídico e diretor de compliance. Como você gerencia essas três funções no dia a dia?

A chave é a integração, não a separação. Em organizações como a Cirion, onde operamos infraestrutura digital crítica em múltiplas jurisdições, os aspectos legais, regulatórios e de conformidade fazem parte do mesmo sistema de gestão de riscos e criação de valor.

O papel do conselheiro jurídico geral garante a solidez jurídica e o suporte estratégico para os negócios, o papel do diretor de compliance garante uma cultura consistente, integridade e padrões éticos em toda a organização, e a função de vice-presidente executivo permite que essas duas dimensões sejam alinhadas diretamente com a agenda de negócios e a tomada de decisões no mais alto nível.

O que muda especificamente quando a função jurídica tem status executivo no conselho de administração?

O título de Vice-Presidente Executivo (EVP), em particular, tem um impacto concreto: posiciona a função jurídica não apenas como consultiva, mas também como parte da liderança executiva. Isso muda a conversa: passamos de revisar decisões para cocriá-las, incorporando variáveis como risco, regulamentação, reputação e sustentabilidade desde o início.

Na minha experiência, quando os aspectos legais e de conformidade são integrados ao negócio desde a fase de concepção, não só os riscos são mitigados, como a execução também é acelerada com maior segurança.

“Passamos de revisar decisões para cocriá-las, incorporando variáveis como risco, regulamentação, reputação e sustentabilidade desde o início.”

A Cirion opera em mais de 20 países onde a regulamentação digital está progredindo em velocidades muito diferentes. Quais são as frentes regulatórias que mais a desafiam hoje e como ela elabora uma estratégia jurídica coerente quando cada jurisdição impõe suas próprias regras?

Hoje, as principais questões — privacidade, segurança cibernética e inteligência artificial — não podem mais ser analisadas isoladamente. Da nossa perspectiva, elas fazem parte do mesmo ecossistema regulatório, onde dados, infraestrutura, governança e confiança do cliente estão profundamente interligados.

O principal desafio na América Latina é a fragmentação regulatória: cada país avança em ritmo diferente e, em alguns casos, com abordagens distintas. Isso exige a elaboração de estratégias jurídicas flexíveis baseadas em princípios comuns.

Quais são os princípios comuns em que se baseia esta estratégia regional?

Na Cirion, trabalhamos com três pilares: padrões globais consistentes, especialmente em proteção de dados e cibersegurança; adaptabilidade local, com um profundo conhecimento de cada jurisdição; e governança integrada, onde a regulamentação, a segurança e a conformidade são gerenciadas de forma coordenada.

No caso da inteligência artificial, também é fundamental ampliar nossa perspectiva: não se trata apenas de regular os algoritmos, mas todo o ecossistema que os torna possíveis: dados, infraestrutura, provedores, segurança e governança.

“Não se trata apenas de regular os algoritmos, mas de todo o ecossistema que os torna possíveis: dados, infraestrutura, provedores, segurança e governança.”

Você representa um perfil ainda raro na América Latina: uma mulher no mais alto escalão do departamento jurídico de uma multinacional de tecnologia. Como você vivenciou essa realidade ao longo de sua carreira e o que ainda precisa ser mudado?

Ao longo da minha carreira, muitas vezes estive em espaços onde a representação feminina era limitada, especialmente em níveis de tomada de decisão. Com o tempo, isso mudou, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Acredito que o progresso mais importante é que a questão agora está na agenda e é percebida como uma prioridade de negócios, e não apenas como uma prioridade de diversidade. No entanto, o desafio não é mais simplesmente inserir mais mulheres nesses cargos, mas garantir que elas encontrem as condições para se desenvolverem e permanecerem neles. Isso exige trabalho em vários níveis: cultura organizacional, modelos de liderança, redes de apoio e políticas que permitam às mulheres conciliar as demandas profissionais com suas vidas pessoais.

É fundamental também destacar exemplos a serem seguidos. Quando alguém percebe que isso é possível, o impacto se multiplica.

“O desafio não é mais apenas colocar mais mulheres nessas funções, mas garantir que elas encontrem as condições para se desenvolverem e permanecerem nelas.”

Você participará do Foro Gerencias Legales Miami 2026, organizado pela Gericó Associates. O que te motivou a participar e qual mensagem você gostaria de compartilhar com seus colegas?

Minha motivação para participar está ligada à oportunidade de ter uma conversa honesta e estratégica entre nós, que lideramos a área jurídica na região.

Do setor tecnológico, a mensagem é clara: estamos entrando em uma fase em que a confiança será o principal fator impulsionador do crescimento digital. E essa confiança depende, em grande medida, de como gerenciamos a relação entre inovação, regulamentação e ética.

Que conversa específica você acha que a comunidade latino-americana de GCs precisa ter urgentemente, mas ainda não está tendo?

Acredito que há uma conversa urgente que ainda não estamos tendo com a profundidade necessária: como reformular a função jurídica para que ela seja verdadeiramente protagonista na transformação digital.

Isso implica passar do controle para o planejamento, da reação para a antecipação e de uma função de suporte para a de parceiro estratégico de negócios.

Além disso, na América Latina como região, precisamos trabalhar mais em propostas colaborativas com o setor público para construir marcos regulatórios inteligentes que não nos deixem para trás na economia digital.

“Há uma conversa urgente que ainda não estamos tendo com a profundidade necessária: como redesenhar a função jurídica para que ela seja verdadeiramente protagonista na transformação digital.”

O que Valeria Plastino encontra quando se desconecta do trabalho, e que conselho daria a um jovem advogado latino-americano que aspira um dia a ocupar um cargo como o dela?

Depois de muitos anos trabalhando em ambientes exigentes e dinâmicos, aprendi que desconectar não é um luxo, mas uma necessidade. Encontro equilíbrio em coisas simples: tempo com minha família, leitura e atividades que me permitem ganhar perspectiva. Sou apaixonada por viajar e descobrir novos lugares.

Tendo construído uma carreira em diferentes países e culturas, também valorizo muito os momentos de pausa que me permitem reconectar-me com o que é essencial.

E quais três coisas você diria para aquela jovem advogada latino-americana que está construindo sua carreira hoje?

Para um jovem advogado latino-americano, eu diria três coisas: construa uma base técnica sólida, mas não se limite aos aspectos jurídicos — é essencial entender o negócio; seja curioso e adaptável, porque os setores mudam e o direito precisa evoluir com eles; e nunca subestime o valor da integridade e da reputação, porque, a longo prazo, elas são os principais ativos de uma carreira.

E talvez o mais importante: incentive-os a ultrapassar fronteiras geográficas e profissionais. Muitas das oportunidades mais transformadoras surgem precisamente aí.

“Nunca subestime o valor da integridade e da reputação: a longo prazo, são os ativos mais valiosos em uma carreira.”

 

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