Esta entrevista integra a reportagem especial Brasil em 2026 e a nova lógica do mercado: a visão do big law e aprofunda uma das leituras mais institucionais do setor. Conversamos com Tito Amaral de Andrade, sócio-gerente do Machado Meyer, para entender como a estratégia é construída em um ambiente marcado por volatilidade econômica, crescente complexidade regulatória e um cenário geopolítico cada vez mais fragmentado.
Desde o início da conversa, Amaral de Andrade deixa claro que o momento atual exige mais do que capacidade de reação. Em sua avaliação, o verdadeiro desafio enfrentado pelas grandes organizações não é agir rapidamente, mas preservar a coerência estratégica justamente quando o contexto pressiona por decisões defensivas ou de curto prazo.
“Em contextos de incerteza, a força institucional e a coerência estratégica superam qualquer reação precipitada”.
Uma estratégia medida em anos, não em trimestres
A principal diretriz estratégica do Machado Meyer para 2026 não se apoia em anúncios pontuais nem em iniciativas de efeito imediato. Para Amaral de Andrade, a diferenciação real é resultado de uma visão de longo prazo, sustentada por três pilares que se reforçam mutuamente: inovação responsável, excelência técnica e profundo alinhamento com as necessidades do cliente.
Ao longo da conversa, o sócio-gerente enfatiza a importância de evoluir sem perder a identidade institucional do escritório. Não se trata de preservar o status quo, mas de avançar com critério, assegurando que cada decisão contribua para uma direção clara e consistente. Em suas palavras, mais relevante do que acumular planos estratégicos é garantir que as operações cotidianas estejam alinhadas a essa lógica.
“Em vez de detalhar planos específicos, nosso foco é consolidar pilares estratégicos que sustentem um crescimento consistente e uma capacidade real de adaptação”.
Em um mercado jurídico cada vez mais exposto a mudanças regulatórias, econômicas e tecnológicas, essa abordagem permite ao escritório oferecer um ativo cada vez mais valorizado pelos clientes: previsibilidade institucional, bom senso estratégico e continuidade na tomada de decisão.

Tecnologia e inteligência artificial: inovação sem perda de identidade
A tecnologia — e a inteligência artificial em particular — deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade incorporada ao cotidiano das organizações. Para Amaral de Andrade, seu impacto é inegável, mas a adoção acrítica representa um risco concreto. O debate central, enfatiza, não é tecnológico, mas cultural e estratégico.
No Machado Meyer, a IA é tratada como uma ferramenta para aprimorar processos, apoiar a tomada de decisões e elevar o trabalho jurídico a um patamar mais analítico e estratégico. A questão decisiva não está no volume de investimento, mas na forma como a tecnologia é integrada à prática profissional.
“A tecnologia só gera valor quando está alinhada à cultura e aos critérios profissionais da empresa.”
Quando incorporada dessa maneira, a IA pode liberar tempo, melhorar a experiência do cliente e fortalecer a análise jurídica em questões complexas. Mal gerida, porém, corre o risco de corroer os fundamentos da assessoria jurídica de qualidade: o julgamento profissional e a compreensão aprofundada do contexto em que as decisões são tomadas.
Um cliente mais informado, mais prudente e mais exigente
A transformação no perfil do cliente corporativo é um dos pontos centrais da conversa. Amaral de Andrade observa um cliente muito mais atento aos fatores macroeconômicos, regulatórios e geopolíticos, o que se traduz em decisões mais cautelosas e em uma demanda crescente por segurança e previsibilidade.
Nesse ambiente, os escritórios de advocacia não podem mais se limitar à solução de questões jurídicas isoladas. Precisam atuar como parceiros estratégicos, capazes de interpretar cenários e apoiar decisões em contextos de elevada incerteza. Como destaca o sócio-gerente:
“Os clientes buscam uma perspectiva ampla — alguém que compreenda não apenas o arcabouço legal, mas também o contexto em que as decisões são tomadas”.
Comunicação clara, profundo entendimento do negócio do cliente e integração interna passam, assim, a ser tão relevantes quanto a excelência técnica individual.
Rainmakers: do negócio ao projeto institucional
O papel do rainmaker permanece central, mas seu significado evoluiu. Para Amaral de Andrade, já não se trata apenas de gerar negócios, e sim de construir relações de confiança de longo prazo e fortalecer o projeto institucional do escritório.
Os líderes que se destacam hoje personificam a cultura, os valores e a capacidade da organização de oferecer soluções sofisticadas em contextos complexos. Atuam como ponte entre o mercado, as equipes internas e a estratégia coletiva.
“O verdadeiro criador de negócios não é apenas aquele que traz clientes, mas aquele que representa o projeto institucional da empresa”.
Esses líderes também exercem papel decisivo na atração e no desenvolvimento de talentos, assegurando que o crescimento não dependa de indivíduos isolados, mas de uma estrutura sólida, compartilhada e sustentável.
Onde estarão as oportunidades — e os riscos — em 2026
O mercado jurídico seguirá refletindo os movimentos da economia, da agenda regulatória e do fluxo de investimentos no Brasil. Projetos estruturais, transações estratégicas e processos de reestruturação continuarão a moldar a agenda, acompanhados de forte atividade nos setores de infraestrutura e energia.
Esse cenário é intensificado pela crescente complexidade regulatória, que impulsiona a atuação em contencioso e abre um potencial relevante no campo tributário, especialmente após as reformas recentes. Nesse contexto, a capacidade de antecipação e o domínio técnico deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos para a atuação no topo do mercado.

Talento, liderança e cultura: o verdadeiro diferencial
O desenvolvimento de talentos ocupa uma posição central na estratégia do Machado Meyer. Para Tito Amaral de Andrade, formar líderes não é um projeto pontual, mas um investimento estrutural, daqueles que determinam a sustentabilidade institucional da firma ao longo do tempo.
O escritório assumiu um compromisso explícito com o aprendizado contínuo, o treinamento multifuncional e o fortalecimento de lideranças alinhadas aos seus valores institucionais. Iniciativas como a Academia Machado Meyer e a Academia de Liderança materializam uma convicção clara: a excelência técnica só se sustenta quando acompanhada por senso de pertencimento e visão compartilhada.
Nesse contexto, a liderança exerce um papel decisivo na construção de uma cultura capaz de equilibrar alto desempenho, inovação e atenção genuína às pessoas, um equilíbrio cada vez mais raro em ambientes pressionados por crescimento acelerado e respostas imediatas.
“A cultura não é proclamada, é praticada. E é aí que se define a verdadeira sustentabilidade de uma empresa”.
Em um mercado jurídico no qual a pressão por reação é constante, Amaral de Andrade propõe uma abordagem deliberadamente menos imediatista e mais estrutural. Em sua leitura, o big law de 2026 não será definido por quem adota primeiro uma ferramenta ou lança uma iniciativa chamativa, mas por quem consegue preservar uma direção clara quando o contexto se torna adverso.
Trata-se de uma reflexão que desafia diretamente o setor: em tempos de incerteza, a vantagem competitiva mais relevante não está na velocidade, mas na consistência estratégica.