Os advogados brasileiros serão os primeiros da América Latina a usar a nova versão do CoCounsel Legal, a plataforma de IA jurídica de Thomson Reuters. A empresa a anunciou em 14 de outubro, um ano depois de lançar no Brasil, em outubro de 2025, a versão anterior em português. A nova versão é agêntica: o advogado descreve o caso e o sistema planeja o trabalho, pesquisa as fontes e redige com citações, com base no conteúdo do Westlaw Brasil e da Revista dos Tribunais. Thomson Reuters prevê que ela esteja disponível no Brasil até o fim do mês.
Rodrigo Hermida, vice-presidente de Legal Professionals para a América Latina da empresa, justifica a prioridade com o volume do mercado. Segundo o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), citado por Hermida, 40,9 milhões de novos processos ingressaram no Judiciário brasileiro em 2025, o maior número da série histórica. O ano terminou com 75,5 milhões de processos em tramitação. De acordo com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mais de 1,5 milhão de advogados lidam com essa demanda.
Hermida também se apoia no relatório Future of Professionals 2026, elaborado pela própria empresa com uma amostra latino-americana concentrada no Brasil. Segundo o estudo, 84% dos profissionais jurídicos da região usam alguma ferramenta de IA pelo menos uma vez por semana, mas apenas 48% têm acesso a ferramentas desenvolvidas para o trabalho profissional. Para 87%, há uma distância entre o que esperam da IA e o que ela entrega. Dois em cada três acreditam que suas firmas de advocacia perderão clientes se não demonstrarem o valor que a IA agrega ao seu trabalho, e 49,9% esperam que esse risco se concretize nos próximos dois anos.
A diferença em relação à versão anterior está na forma de solicitar o trabalho. Antes, o usuário precisava escolher uma habilidade, definir um fluxo ou escrever um prompt detalhado, e o sistema entregava os resultados tarefa por tarefa. Agora o advogado descreve o caso em linguagem natural. A plataforma define uma abordagem, busca fontes autorizadas no conteúdo de Thomson Reuters e incorpora os documentos e playbooks internos de cada firma de advocacia. Em seguida, redige com citações e ajusta a análise quando o contexto muda.
A versão brasileira inclui as mesmas quatro funcionalidades do lançamento global, com conteúdo local:
- Pesquisa jurídica: combina o Westlaw Brasil com o Westlaw e o Practical Law internacionais.
- Workspaces: espaços por caso que preservam documentos, precedentes e conhecimento institucional entre tarefas.
- Tabular Analysis: permite revisar até 10 mil documentos e fazer até 100 perguntas simultâneas, com resultados vinculados aos materiais de origem.
- Integrações: conexão com sistemas de gestão de documentos e ferramentas de produtividade.
O suporte ficará a cargo de equipes locais que trabalham em português e dos editores da Revista dos Tribunais.
Para departamentos jurídicos e firmas de advocacia que lidam com informações sensíveis, Thomson Reuters assume três compromissos. Todas as citações têm links para as fontes. O raciocínio do sistema é visível, para que o advogado possa examiná-lo. As informações confidenciais do cliente não são utilizadas em resultados para terceiros.
A nova versão do CoCounsel Legal já está disponível no Reino Unido. Thomson Reuters prevê lançá-la até o fim de outubro no Brasil, na Austrália, no Canadá, em Cingapura e nos Emirados Árabes Unidos, e estendê-la a mais de 90 países e territórios ao longo de 2026.
No mesmo dia, a empresa apresentou uma funcionalidade adicional para a plataforma, o Multinational Profile. Ele permite pesquisar, em uma única consulta, a legislação de mais de 100 países e territórios. Com ele, é possível comparar requisitos legais entre jurisdições, identificar pontos que exigem assessoria local e rastrear cada resultado até a fonte. Seu lançamento é mais restrito que o da plataforma: estará disponível em outubro apenas para clientes dos Estados Unidos, da Europa, do Reino Unido, do Canadá e da Austrália. Nem o comunicado global nem o texto de Hermida o mencionam para o Brasil ou para outro mercado latino-americano.