O setor jurídico está passando por uma profunda transformação. A tecnologia, os novos modelos de negócios e a evolução das organizações jurídicas estão redefinindo a prática do direito e a gestão dos escritórios.
Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, reunimos entrevistas com mulheres que estão influenciando ativamente essa mudança. Da inovação jurídica e da estratégia dos escritórios de advocacia à gestão de equipes e à transformação organizacional, essas profissionais oferecem reflexões sobre o presente e o futuro do setor jurídico.
Para além dos cargos que ocupam, estas entrevistas buscam compreender como pensam, como lideram e qual é a sua visão sobre os rumos da profissão jurídica.
A primeira entrevista é com Sara Molina, sócia da área de legal Tech e transformação digital da Pérez-Llorca, na Espanha, uma das profissionais que mais têm promovido a incorporação de tecnologia e novos modelos operacionais na advocacia. A partir dessa posição, ela observa como a inovação está redefinindo não apenas a forma como os serviços jurídicos são prestados, mas também a dinâmica de liderança dentro dos escritórios.

Liderando a transformação tecnológica do direito
A inovação é um tema recorrente no setor jurídico. No entanto, para Sara Molina, o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na mudança cultural que ela exige. Ao longo de sua carreira, ela observou que grande parte da resistência à transformação do setor não decorre da falta de ferramentas ou recursos, mas de mentalidades profundamente enraizadas.
“O maior desafio continua sendo cultural”, explica ela. Durante décadas, o prestígio na advocacia foi construído em torno de métricas muito específicas de valor e de uma concepção bastante individualista de desempenho profissional. A transformação tecnológica está forçando uma reavaliação dessa lógica. Não se trata de substituir o modelo tradicional de prática jurídica, mas de ampliá-lo para incorporar novas formas de gerar valor para o cliente.
Essa mudança também implica uma revisão da forma como o trabalho é organizado dentro dos escritórios de advocacia. Historicamente, a advocacia tem sido uma atividade muito autossuficiente e pouco aberta à colaboração com outras disciplinas. No entanto, a transformação tecnológica exige justamente o oposto: trabalhar com tecnólogos, analistas de dados, designers e especialistas em processos.
“Passar da especialização fechada para a inteligência coletiva é provavelmente um dos maiores desafios estruturais do setor”, destaca Molina.
Um novo espaço para liderança no setor jurídico
Nesse cenário de transformação, a liderança tecnológica está abrindo novas oportunidades no setor jurídico, especialmente para as advogadas.
A tecnologia jurídica ampliou as formas de exercer influência dentro das organizações. Hoje, um profissional do Direito pode liderar o desenvolvimento de um produto jurídico digital, uma estratégia de automação, um sistema de gestão do conhecimento ou uma arquitetura de dados jurídicos, com impacto direto nos negócios dos clientes e na eficiência dos escritórios.
“Estamos vendo como a liderança jurídica está começando a ser construída também a partir da criação de soluções”, explica Molina. Isso representa uma mudança significativa em relação aos modelos tradicionais, nos quais a influência profissional estava mais diretamente associada à posição hierárquica ou a trajetórias de carreira muito específicas dentro da organização.
No campo da inovação, a liderança se constrói de forma diferente: a partir da capacidade de compreender problemas complexos, traduzi-los em soluções operacionais e mobilizar equipes multidisciplinares para implementá-las.
Muitas advogadas estão encontrando nesse espaço uma maneira de exercer influência real dentro das organizações.
“A liderança em inovação baseia-se menos na posição formal e mais na capacidade de conectar disciplinas, construir equipes e transformar ideias em soluções concretas.”
Inovar também é praticar o direito
O compromisso de Molina com a inovação jurídica também deriva de uma reflexão sobre o próprio conceito de prática jurídica. Durante muito tempo, a excelência profissional no setor foi associada quase exclusivamente à assessoria jurídica tradicional.
Esse paradigma continua predominante, mas a transformação do setor está ampliando seus limites.
“O ponto de virada ocorre quando você entende que transformar a forma como os serviços jurídicos são prestados também é uma maneira de exercer a advocacia”, explica ela. Nessa perspectiva, a inovação não surge como uma alternativa à prática jurídica, mas como uma extensão natural dela.
Trabalhar com inovação permite observar o impacto do direito sob uma perspectiva diferente. Enquanto a assessoria jurídica tradicional opera caso a caso, a inovação jurídica pode transformar processos inteiros, aprimorar a tomada de decisões ou tornar o direito mais acessível e eficiente para as organizações como um todo.
“O impacto deixa de ser individual e passa a ser sistêmico.”
O papel das mulheres na transformação do setor
Nesse processo de transformação, Molina observa que muitas mulheres estão desempenhando um papel particularmente relevante como agentes de transformação.
Ela ressalta que não existe um modelo único de liderança feminina, mas percebe que a diversidade de estilos está ampliando as formas como a liderança é exercida dentro das organizações jurídicas. Segundo Molina, mulheres que atuam em papéis ligados à transformação muitas vezes funcionam como pontes entre diferentes disciplinas e níveis da organização.
“A inovação acontece nas intersecções”, destaca ela. “Entre tecnologia, negócios, operações e direito. E nesses espaços, vemos uma liderança que conecta diferentes pessoas, equipes e visões.”
Essa abordagem integrativa é especialmente valiosa em ambientes complexos, como grandes organizações, onde a transformação de estruturas consolidadas exige a construção de consensos, o alinhamento de visões e a mobilização de diferentes perfis profissionais.
Transformação interna das empresas
Liderar processos de inovação em grandes escritórios de advocacia envolve trabalhar com estruturas já estabelecidas. Para Molina, o potencial de transformação interna existe, mas depende de um fator crucial: que a inovação esteja alinhada à estratégia geral da firma.
Quando a inovação se limita a iniciativas isoladas ou a laboratórios experimentais, seu impacto tende a ser reduzido. No entanto, quando passa a influenciar a forma como os serviços jurídicos são concebidos, como as equipes são organizadas ou como o valor gerado para os clientes é avaliado, seu potencial transformador se torna muito maior.
“Muitas mudanças podem ser feitas internamente”, explica ela. “Desde a introdução de modelos de trabalho mais colaborativos até a reformulação de processos jurídicos inteiros ou a integração da tecnologia na prática diária.”
Nesse cenário, os escritórios que estão incorporando a inovação em sua estratégia também estão colocando no centro da discussão sobre o futuro do setor aqueles que lideram esses processos — muitos deles, mulheres.
Liderança no futuro do direito
Olhando para as próximas gerações, Molina insiste que a liderança jurídica do futuro continuará baseada em uma sólida excelência técnica. A transformação tecnológica não elimina a necessidade de rigor jurídico; pelo contrário, a reforça.
No entanto, a liderança no novo contexto do setor jurídico também exigirá outras capacidades: compreensão da tecnologia, desenvolvimento de soluções jurídicas úteis para organizações complexas e trabalho interdisciplinar.
“O futuro do Direito não consistirá apenas na interpretação de regras ou na resolução de casos, mas na construção de sistemas jurídicos eficazes: processos, ferramentas, modelos operacionais e serviços digitais.”
Ela também recomenda que quem está começando a carreira não trilhe esse caminho sozinho. Redes profissionais, referências e comunidades de prática — especialmente entre advogadas — podem acelerar o aprendizado e abrir novas oportunidades.
Isso nos leva a uma reflexão final que resume bem o momento que a profissão está vivendo: o setor está evoluindo, e muitas das trajetórias profissionais mais interessantes são justamente aquelas que ousam explorar novos territórios.
“A liderança, em grande medida, consiste em ousar construir caminhos antes que eles estejam claramente definidos.”