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Carlos Alberto Saiz e Esmeralda Saracibar, da Ecix Tech: “Automatizar não é progresso; a velocidade vem da compreensão do problema”

Carlos Alberto Saiz Peña e Esmeralda Saracibar Serradilla lideraram a Ecix Tech no processo que a tornou a primeira empresa de serviços profissionais a certificar seu sistema de gestão de inteligência artificial segundo a norma ISO 42001. Para eles, porém, o verdadeiro diferencial não é a certificação em si, mas os critérios: saber onde aplicar a IA, onde não aplicá-la e como transformar a ética em uma vantagem competitiva concreta no setor jurídico e de compliance

Por Heidi Maldonado

Ecix Tech tornou-se a primeira empresa de serviços profissionais a obter a certificação ISO 42001 para seu sistema de gestão de inteligência artificial — a primeira norma internacional que estabelece os requisitos para implementar, manter e aprimorar um sistema de gestão de IA em uma organização. A certificação, concedida pela EQA, estabelece um precedente no setor jurídico e de compliance.

Mas, para além do marco técnico, a certificação revela uma forma de pensar.

Carlos Alberto Saiz Peña, vice-presidente e sócio da Ecix Tech, e Esmeralda Saracibar Serradilla, também sócia da empresa, dedicaram mais de sete anos ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial aplicadas a casos reais em ambientes altamente regulados. Eles não veem a IA como uma tendência passageira, mas como uma responsabilidade estrutural. Nesta conversa, refletem sobre o que aprenderam, os limites que não estão dispostos a ultrapassar e por que acreditam que a ética será o verdadeiro diferencial nos próximos anos.

“Aprendemos que a tecnologia não substitui o bom senso”

Olhando para trás, eles não descrevem uma corrida para adotar a tecnologia antes dos outros, mas um processo de refinamento intelectual.

“A coisa mais importante que aprendemos é que a velocidade não vem da tecnologia, mas de uma boa compreensão do problema.”

Ao longo desses anos, eles viram projetos de inteligência artificial que nasceram com entusiasmo e foram abandonados porque partiram da pergunta errada: o que pode ser automatizado?

“Partimos de uma premissa diferente: onde ocorrem, de fato, atritos, riscos ou perdas de qualidade no trabalho jurídico e de compliance?”

Trabalhar com dados jurídicos reais, auditorias, inspeções ou incidentes exige extremo rigor. Não basta que a solução funcione “em geral”. Ela precisa funcionar em um contexto específico e ser defensável perante um órgão regulador.

Hoje, são mais rápidos, explicam, porque sabem descartar com agilidade o que não agrega valor.

Intervenha onde dói, não automatize por inércia

A abordagem deles é deliberadamente prática: caso de uso e solução. Na conformidade regulatória, o problema não é gerar mais documentação, mas entender com precisão onde existem desvios e qual é o impacto real que eles produzem.

Na gestão de incidentes, a urgência não é um conceito padronizado, mas uma forma de organizar informações dispersas e auxiliar na coordenação de decisões entre as áreas técnica e jurídica.

“Já vimos clientes que querem uma ferramenta que automatize todo o processo. Isso geralmente cria mais ruído do que soluções.”

Eles preferem intervir nos pontos em que o tempo está sendo efetivamente desperdiçado ou o risco está aumentando. Para eles, essa intervenção seletiva é uma forma de respeitar o processo legal.

A explicabilidade é inegociável

A Ecix combina ferramentas disponíveis no mercado com desenvolvimento próprio. A decisão de comprar ou construir não é ideológica.

“Se uma ferramenta disponível no mercado resolve bem o problema e oferece garantias quanto ao controle de dados, nós a utilizamos. Não desenvolvemos por desenvolver.”

Eles optam por desenvolver soluções quando o caso de uso é especialmente sensível ou quando precisam compreender exatamente como um resultado é alcançado.

“Em matéria jurídica e de compliance, a rastreabilidade e a explicabilidade não são um diferencial. Fazem parte do serviço.”

Aceitar uma caixa-preta, em determinados contextos, seria incompatível com o modelo adotado pela empresa.

“A IA trabalha para nós, e não o contrário”

Uma das linhas estratégicas da empresa chama-se IA Orientada – Foco no Ser Humano. A ideia é clara: a tecnologia aprimora, não substitui.

“A IA amplia o talento da equipe, mas não substitui o julgamento profissional nem a responsabilidade.”

Isso envolve treinamento contínuo, reformulação de tarefas e uma definição clara de quais decisões exigem intervenção humana obrigatória. Eles medem o impacto na qualidade, na consistência e na redução de erros — não apenas na economia de tempo. Quando a estrutura está clara, explicam, a IA deixa de gerar resistência interna.

Dizer não também constrói uma marca

A certificação ISO 42001 reforça um posicionamento que já existia.

“Há projetos que recusamos porque o risco associado não se alinha com a nossa filosofia TEN — Tecnologia, Ética e Conformidade.”

Segundo eles, saber recusar quando apropriado fortalece o relacionamento com o cliente e a confiança do mercado.

Ecix é ética, repetem, sem pompa.

Lo que el mercado está subestimando

Após trabalharem com mais de 300 DPOs e CISOs, eles identificaram padrões: equipes subdimensionadas, pressão regulatória crescente e foco excessivo na conformidade formal em detrimento das operações reais.

Mas demonstram preocupação especial com a implementação de sistemas de IA em grandes organizações.

“Há falta de um inventário abrangente e de uma análise de risco aprofundada. Existe a tendência de acreditar que uma política e algum treinamento serão suficientes para prevenir problemas.”

Para eles, o verdadeiro desafio não é técnico, mas de governança.

A aposta de três anos: crescer sem perder de vista os princípios

O Plano Estratégico On Air 2025–2027 não é um documento concebido para ser apresentado em uma reunião interna. Trata-se, na verdade, da formalização de uma trajetória iniciada há sete anos.

Quando falam sobre esse plano, não recorrem à retórica do crescimento acelerado, mas à perspectiva da consolidação.

“Estamos entrando neste segundo ano tendo já alcançado muitos objetivos e com uma abordagem diferente da de outras empresas.”

Essa abordagem diferenciada tem base sólida: investimento contínuo em tecnologia e capacitação quando isso ainda não era uma tendência consolidada. Nos últimos sete anos, a empresa destinou recursos significativos — proporcionais ao seu porte e à sua especialização — ao desenvolvimento de capacidades internas, à integração de perfis técnicos e jurídicos e à construção de um modelo próprio de governança tecnológica.

“Nosso investimento em tecnologia e capacitação foi extraordinário para o nosso porte e setor. Isso nos permitiu ocupar uma posição verdadeiramente única para enfrentar os desafios que nossos clientes nos apresentam.”

O plano não busca crescimento volumétrico. Busca crescimento sustentável. E, para eles, isso implica três vetores inseparáveis:

  • Inovação aplicada com bom senso.

  • Cultura interna coesa.

  • Uma equipe comprometida em fazer as coisas de forma diferente.

“Não queríamos ser uma empresa que usa tecnologia. Queríamos ser uma empresa que sabe como gerenciá-la.”

A cultura desempenha papel central — não como retórica motivacional, mas como condição operacional. Trata-se de uma equipe que compreende os limites éticos, compartilha a linguagem técnica e jurídica e reconhece que a IA não é um atalho, mas uma responsabilidade.

O lema sintetiza essa visão:

“Cumpra as regras, mitigue os riscos: a ética de amanhã, agora.”

Não é uma frase inspiradora. É uma declaração de posicionamento.

Em um mercado no qual a inteligência artificial se tornou diferencial competitivo, Carlos Alberto Saiz Peña e Esmeralda Saracibar Serradilla apostam em algo menos espetacular, porém mais estrutural: governança, rastreabilidade e critérios.

E é aí que reside, provavelmente, sua verdadeira vantagem competitiva.

A certificação ISO 42001 foi um marco. Mas não é o foco da conversa. É consequência.

O ponto central é que decidiram submeter a inteligência artificial — essa ferramenta que promete velocidade e eficiência — a regras, limites e padrões verificáveis. Em um setor no qual a pressão regulatória está aumentando, onde DPOs e CISOs atuam com equipes enxutas e onde a IA é implementada em ritmos desiguais, a questão já não é quem adota a tecnologia primeiro.

A questão é quem pode defendê-la.

E, nessa resposta, para a Ecix, a ética não é um complemento reputacional. É o modelo.

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