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Aterrissagem suave na América Latina (II): como crescer nos países da região sem improvisar e evitar os erros que dificultam a expansão

Por Heidi Maldonado

Na primeira parte desta série, analisamos os elementos críticos que toda empresa deve avaliar antes de entrar em um mercado latino-americano: o contexto regional, a dimensão econômica, o arcabouço legal, a gestão tributária e os riscos de integridade. Esse diagnóstico é o ponto de partida. Mas o diagnóstico por si só não internacionaliza nenhum negócio.

Esta segunda parte responde a uma pergunta mais específica: como o processo é executado, passo a passo, sem deixar lacunas? O que se segue é um guia estruturado em oito fases de aterrissagem suave, voltado para a implementação prática. Não se trata de teoria; é o roteiro que diferencia as empresas que consolidam operações daquelas que acumulam erros dispendiosos e difíceis de reverter.

Fase 1 — Análise Preliminar e Estratégia de Entrada

O processo começa com uma avaliação realista do negócio e do mercado-alvo. Analisar apenas a taxa nominal do imposto de renda não é suficiente: a viabilidade é determinada pela carga tributária efetiva, juntamente com os prazos de constituição da empresa, os tratados para evitar a dupla tributação e as restrições específicas do setor. Muitas empresas começam operando por meio de contratos internacionais para testar o mercado sem incorrer em obrigações locais, mas essa estratégia tem seus limites: ultrapassar certos limites de atividade pode criar um estabelecimento permanente de fato. Conhecer esse limite antes de ultrapassá-lo não é um detalhe técnico; faz parte da estratégia correta.

Com esse diagnóstico, define-se a estrutura jurídica mais adequada: uma empresa local, filial, escritório de representação ou acordo contratual. Cada alternativa apresenta implicações diferentes em termos de controle, risco e tributação. Uma subsidiária oferece responsabilidade limitada e autonomia operacional, mas exige capitalização e conformidade integral com as normas societárias. Uma filial expõe diretamente a empresa matriz, pois não possui personalidade jurídica própria. Uma decisão precipitada nesse ponto geralmente resulta em reestruturações dispendiosas posteriormente.

Fase 2 — Incorporação ou registro da entidade

Com a estratégia definida, estão sendo feitos progressos na formalização do negócio: elaboração do contrato social, registro na Junta Comercial e obtenção do número de identificação fiscal. Simultaneamente, estão sendo analisadas as restrições setoriais aplicáveis e obtidas as licenças necessárias.

Esta fase possui prazos reais que são frequentemente subestimados. Incorporar esses prazos ao plano de negócios é crucial: isso pode definir quando a empresa efetivamente começa a gerar receita e quando suas obrigações começam a se acumular.

Fase 3 — Representante legal e governança da entidade

As operações locais exigem uma figura-chave: o representante legal. Seu papel vai além da mera formalidade; em diversos países da região, ele pode assumir responsabilidade pessoal por descumprimento de normas regulatórias ou trabalhistas. Portanto, definir com precisão seus poderes e limitações é essencial. E o perfil do representante importa: não basta ser alguém de confiança da matriz. Ele deve ter experiência comprovada na jurisdição, formação relevante e um conhecimento genuíno das normas culturais do mercado. Confiança sem conhecimento local é um risco que inevitavelmente se concretizará.

O mesmo princípio se aplica à equipe de consultores. Na América Latina, currículos são importantes. Trabalhar com profissionais da mesma cultura, com histórico e referências verificáveis, não é um luxo: é um requisito mínimo de qualidade. Perguntar sobre casos reais e setores comparáveis não é sinal de desconfiança; é uma prática básica de diligência prévia.

Fase 4 — Bancário, estrutura financeira e registo de investimento estrangeiro

O próximo passo é viabilizar a transação financeira: abertura de contas bancárias, cumprimento das normas de combate à lavagem de dinheiro e registro formal do capital estrangeiro. O registro oportuno do investimento estrangeiro direto é um pré-requisito para a repatriação de lucros, dividendos ou capital. A falta de registro ou o registro tardio podem tornar praticamente impossível a retirada de fundos do país, ou obrigá-los a fazê-lo em condições extremamente desfavoráveis. Este não é um mero procedimento administrativo: é o mecanismo que protege o investimento internamente.

A rastreabilidade dos fundos desde o desembolso inicial é essencial. Uma má gestão inicial nesta fase costuma tornar-se evidente anos mais tarde, precisamente quando a empresa pretende distribuir lucros ou alienar ativos.

Fase 5 — Preços de Transferência: Estruturação desde o Início

Os preços de transferência representam um dos maiores riscos fiscais em qualquer expansão multinacional na região. Cada transação intragrupo — serviços, licenças, financiamento, compra e venda de mercadorias — deve ser avaliada a preços de mercado, e seu planejamento não pode ser um exercício de conformidade retroativo: deve ser desenvolvido em paralelo com o modelo de negócios. A maioria dos países da região segue as diretrizes da OCDE, embora com adaptações locais relevantes.
Duas áreas estão sob intenso escrutínio das autoridades. Primeiro: serviços intragrupo (pagamentos por gestão, administração ou suporte) que são questionados quando não se demonstra nenhum benefício real para a entidade local ou quando as margens não estão em conformidade com o princípio da plena concorrência. Segundo: empréstimos entre partes relacionadas, que estão sujeitos tanto às regras de preços de transferência quanto às normas de subcapitalização que limitam a dedução de juros.

Os riscos de uma estruturação inadequada são concretos e cumulativos: ajustes fiscais com penalidades que podem chegar ao valor total do imposto não pago, dupla tributação, distorção das demonstrações financeiras e contingências que crescem silenciosamente até serem expostas por uma auditoria, sem possibilidade de correção. Assessores jurídicos, tributários e contábeis devem trabalhar em coordenação desde a fase de planejamento, e não depois que os problemas já se materializaram.

Fase 6 — Contabilidade, Finanças e Organização do Trabalho

Com a estrutura estabelecida, o sistema contábil é implementado de acordo com as normas internacionais, a emissão de faturas eletrônicas é ativada onde exigido pela legislação e um auditor externo é nomeado quando necessário. O ponto crítico é a coordenação entre a contabilidade local e os relatórios corporativos da matriz: sistemas incompatíveis e critérios não padronizados geram retrabalho em cada fechamento contábil e erros que, em uma auditoria, podem ter consequências desproporcionais à sua origem.

Simultaneamente, o aspecto trabalhista é formalizado: registro do empregador, cumprimento das obrigações salariais, previdência social e gestão da imigração para funcionários expatriados. Um fator frequentemente subestimado é o perfil da equipe local. Pessoas com experiência na mesma região reduzem consideravelmente o atrito inicial: elas entendem os prazos, as hierarquias e como a confiança é construída. Na América Latina, os relacionamentos precedem os contratos, e aqueles que não entendem isso aprendem a um custo imprevisto.

Fase 7 — Conformidade Regulatória Contínua | Conformidade

Uma vez em funcionamento, a disciplina é contínua. Governança corporativa, registros da empresa, proteção de dados, propriedade intelectual e combate à lavagem de dinheiro exigem revisão constante, e não gestão pontual. Estar preparado não é uma abordagem reativa; é essencial para operar corretamente.

Fase 8 — Inicialização e suporte

A transição suave não termina com a constituição da empresa. Os primeiros doze meses são os que concentram o maior número de imprevistos: declarações fiscais iniciais, o primeiro fechamento financeiro, exigências regulatórias e ajustes estruturais. Durante esse período, contar com consultores locais experientes deixa de ser uma preferência e se torna uma necessidade concreta. Não basta ter atuado na região em algum momento; o que importa é compreender o contexto atual, os órgãos reguladores, os prazos reais e as áreas de maior risco. Isso não pode ser improvisado ou delegado remotamente.

Conclusão

Existem dois tipos de empresas que chegam à América Latina: as que chegam de forma metódica e as que chegam às pressas. Uma estrutura jurídica mal concebida não dá aviso prévio; cobra seu preço quando menos se espera. Uma política de preços de transferência implementada tardiamente não é um erro menor: é uma dívida tributária que cresce silenciosamente até que uma auditoria a revele repentinamente. Contratar um representante legal sem experiência local é o tipo de decisão da qual se arrepende três anos depois, tentando explicar por que a operação nunca decolou.

A América Latina não é um mercado hostil. É um mercado exigente que distingue claramente entre aqueles que chegaram preparados e aqueles que chegaram com excesso de confiança. Erros estruturais deixam sua marca. Mas a região tem espaço (muito espaço) para aqueles que entendem que a internacionalização bem-sucedida não é apenas uma vantagem competitiva: é a única maneira sustentável de fazê-lo. As oportunidades não esperam por aqueles que hesitam; elas esperam por aqueles que chegam preparados. E essa preparação, quando bem compreendida, não é um custo: é o investimento mais rentável que uma empresa pode fazer antes de cruzar a fronteira.

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